Nesse capitulo, será mostrado o quanto a oralidade ou a fala está presente na forma escrita. O público, objeto desse estudo, é o jovem ou adolescente. Essa parte do trabalho visa também a identificar o quanto o fenômeno adolescência, com suas características, está presente na forma de se escrever do grupo em questão.
Sabe-se que a Escola toma como padrão para o ensino do português, a Gramática Normativa. A estudiosa da língua, Silva (RILP- Revista Internacional de Língua Portuguesa - nº. 12. 1994) expôs que a Gramática Normativa continua distante de refletir o padrão nacional falado (apesar de ter se deslusitanizado no século XX) o que vem mantendo a situação de muita divergência com o padrão escrito (Ex: colocação pronominal e regência verbal).
Para Silva (1994, p.76), os professores, antes de ensinar a língua oficial do país aos falantes nativos, deveriam se fundamentar na informação precisa de o que os falantes não sabem e o que eles sabem a fim de que lhe seja ensinado aquilo que não saibam. Em nenhum momento se está indo contra o ensino da gramática, pelo contrário, o segredo está em como simplificar esse ensino direcionando para uma coisa mais objetiva. “Quando a Escola corrige o dialeto do aluno, ela acaba modificando seu vernáculo, impingindo-lhe um padrão estranho ao falar, negando, dessa forma, o que ele já sabe falar.” Essa autora (SILVA, 1994, P.76) manifesta sua preocupação com o ensino ao dizer que as escolas deveriam priorizar a aquisição de novas estruturas morfossintáticas (desde a ampliação do vocabulário até a percepção e a produção de estilos) o que facilitaria a comunicação progressiva do indivíduo com outros grupos sociolingüísticos por meio da oralidade e da escrita. Essa dificuldade quanto à maneira de se introduzir os jovens no mundo lingüístico dito “padrão” gera muitas dúvidas e muitos questionamentos o que é facilmente verificado nas turmas de 5ª a 8ª série do ensino fundamental. Para Silva (1994, p.78), a melhor atitude seria munir o professor de uma gramática que descrevesse os usos orais e escritos dos brasileiros cultos acompanhados dos traços variáveis dos dialetos sociais e geográficos, mas significativos no povo brasileiro.
A língua não pode ser formatada de maneira “quadradinha” visto que é falada pelo povo. Como explica TERRA (1997, p. 38-40), a norma e o fato social andam juntos. A norma objetiva regulamentar o fato social o que não acontece tão facilmente, pois, os fatos sociais mudam o tempo todo e a norma, por não mudar com a mesma freqüência, acaba não espelhando, fidedignamente, as mudanças. Acompanhando os fatos sociais estão os jovens, que com toda a sua irreverência e sensibilidade, burlam as regras semânticas e sintáticas para adotarem uma atitude livre frente ao pensar, falar e escrever. TERRA (1997- p. 38) revela que nas escolas só se cumpre a norma gramatical quando o aluno se vê em perigo de “perder nota”.
É patente que a fala é a realização concreta da língua por isso sua evolução obedece, sempre, à evolução da sociedade que a criou. Como se dá essa evolução? Essa evolução ocorre por meio dos empréstimos e transferências[1]. Pode ser dito que os jovens costumam expressar sua revolução íntima por meio de seus escritos (poesias, diários, cartas, bilhetes, etc.). Esse material escrito é rico em empréstimos e transferências. As gírias, as palavras de baixo calão, as abreviações, as mensagens cifradas, os símbolos são o reflexo dos adolescentes.
Como os jovens formam o objeto de estudo desse capítulo, adequado se faz o entendimento a respeito deles. Observar apenas sua linguagem seria pecar em informações uma vez que a linguagem é apenas um prisma de sua complexidade. Para que se tenha um maior conhecimento sobre sua linguagem é importante conhecer mais sobre o universo adolescente. O que é adolescência? OSÓRIO (1989, p.10) explica que é uma etapa evolutiva do ser humano que culmina o processo maturativo biopsicossocial[2] do indivíduo. LEVINSKY (1998, p. 21-33) complementa afirmando que a adolescência é um processo vivido na cultura ocidental que surgiu com a industrialização e o desenvolvimento da burguesia.
É comum ouvir relatos de famílias que dizem que seus filhos adolescentes são muito agressivos e desrespeitosos. Por que isso? LEVINSKY (1998, p. 23) anuncia que a agressividade humana influencia e é influenciada pela cultura vigente em um processo dinâmico e constante.
Na tentativa de explicar ou de acalmar os pais que vivenciam dificuldades com seus filhos, alguns entendidos dizem que a rebeldia e a agressividade são frutos da puberdade, dos “hormônios em ebulição” [3]. Sem o intuito de discordar dessa idéia, mas antes acrescentar, não se pode esquecer que puberdade e adolescência são diferentes. OSÓRIO (1998, p. 10-11) informa que a puberdade é universal (inicia, em condições normais, quase ao mesmo tempo em todos os povos e latitudes) enquanto a adolescência, apesar de seu caráter universal também é regida por características diretamente relacionadas ao ambiente social e cultural do indivíduo. Para Freud[4] (apud LEVINSKY, 1998, p.21-23) a puberdade é um processo advindo das mudanças biológicas e a adolescência de processo de mudança psicosocial. Esse período de transição situado entre a infância e a fase adulta varia de cultura para cultura. Na cultura contemporânea ocidental, os pré-requisitos para a entrada na vida adulta são muito complexos. Não basta somente ter maturidade sexual (como em algumas sociedades primitivas). LEVINSKY (1998, p.25) afirma que o jovem precisa duelar com aspectos sociais, econômicos, religiosos, econômicos, profissionais além dos afetivos. Esse duelo acaba por tornar essa fase (inquieta e questionadora) mais duradoura para o tormento dos pais e dos próprios jovens. Na sociedade brasileira não há um rito de passagem (como entre os judeus, algumas tribos indígenas e africanas) o que torna a aquisição da condição adulta muito confusa e até desorganizada. “É necessário galgar várias etapas, em diferentes setores da vida psicológica, social, comunitária, econômica, profissional, legal, religiosa, moral e outros para poder atingir ou conquistar o status adulto”. (LEVINSKY, 1998, p.26-30).
É ainda em LEVINSKY (1998, p. 25-28) que se encontra a afirmação de que o processo adolescente além de variar de cultura para cultura, também varia dentro de uma mesma sociedade. Os jovens, dos centros urbanos, pertencentes à classe média, mostram-se mais instáveis, inseguros, rebeldes, com grandes oscilações de comportamento e de humor. Alguns pais questionam-se intimamente: “isso não tem fim?”, “Quanto tempo vai durar?” Informação importante nos presta, quanto a isso, a obra “Adolescente hoje” (OSÓRIO, 1998), ao revelar que a puberdade finaliza-se com o completo amadurecimento gonadal, cerca dos 18 anos. O fim da adolescência se dá em torno dos 25 anos[5] e obedece aos quesitos sociais e econômicos.
Sem perder de vista a idéia contida no título deste capítulo, os adolescentes são um mundo muito rico para ser observado. Nesse mundo jovem podem ser percebidas muitas questões interessantes que darão ao observador uma noção sempre atual da realidade do momento. Dentre essas questões: a mudança de ideologia, de comportamento, a efervescência das mudanças sociais e culturais além de se obter uma noção do quanto a língua (a construção de uma linguagem própria ou ainda a desconstrução de uma linguagem padrão vigente) é usada pelos jovens como bandeira de seu estado íntimo, de sua identidade.
Observar a escrita dos jovens é ter certeza de que a Gramática Normativa está mesmo longe de compreender a oralidade e assim, com a intenção de criar sua individualidade, esses jovens, além de romperem com muitos padrões sociais e de hierarquia, também invadem a escrita, meio tão ortodoxo, enfeitando-a com inúmeros traços da oralidade, da conversação informal.
O que a psicologia diz a respeito da linguagem jovem? Osório esclarece que quando um a adolescente diz: ”não adianta falar com os velhos porque eles não me entendem”, deixa implícito “o processo de defasagem lingüística e semântica entre as gerações e que acompanha a quebra do processo comunicante entre elas” Osório (1998, p. 18). Em “Adolescente hoje” (OSÓRIO, 1998, p. 18), lê-se a explicação de que a quebra desse processo comunicante entre pais e filhos se fundamenta nas perdas sofridas (a perda da bissexualidade, da dependência infantil, da linguagem infantil para adquirir a comunicação ou linguagem adulta). Incomum não é ouvir que os jovens não têm identidade[6] própria por isso repetem tudo o que os outros colegas dizem e fazem. O que não é verdade. Osório (1998, p.19) diz que o adolescente tem uma identidade lingüística e semântica adequada à sua condição de adolescente. Um exemplo muito bom disso é a gíria. “A gíria é a representação verbal da identidade adolescente com todo o seu polimorfismo e transitoriedade característicos do processo puberal” (OSÓRIO, 1998, pp.19). Pode ser dito que a gíria é a expressão verbal do processo de diferenciação. O escritor comenta que é um modo de reconhecer-se e a seu “grupo de iguais”.[7] Nesse processo de reconhecimento o jovem costuma adicionar novas palavras ou expressões que surgem criando um microcosmo lingüístico tomando como modelo os símbolos verbais propostos pela linguagem adulta, alterando-os dentro de um novo esquema semântico.
Para que haja comunicação desse novo código é preciso haver receptores conhecedores dos signos que compõem esse código. Daí ser o grupo muito importante. Para Osório (1998, p. 20), o grupo de iguais é a caixa de ressonância do adolescente. Ele continua dizendo que como precisam cristalizar suas identidades adultas e afirmarem-se como indivíduos autônomos os adolescentes deixam de utilizar como modelos identificação os pais, professores e adultos em geral e passam a procurar os tais modelos em seu próprio grupo.
Ernani Terra (1997, p.38) corrobora a idéia de Osório quanto às gírias ao exprimir o fato de que cada grupo distinto tem sua própria gíria[8]. Ela é uma linguagem expressiva utilizada por grupos de falantes e possuem algumas finalidades. A gíria dos jovens, por exemplo, tem por finalidade mostrar-se diferente dos demais grupos. Em “Linguagem, língua e fala” (TERRA, 1997, p.66) há a informação de que a gíria, por ser uma variante da língua, sofre evolução o que explica o surgimento de novas gírias e o desaparecimento de outras. É complicado dizer que os jovens falam errado visto que existem vários níveis da fala.[9] Ao invés de dizer “certo” ou “errado”, dever-se-ia dizer: linguagem adequada e inadequada. O discurso informal faz uso de um “certo” grupo de signos enquanto o formal faz uso de outro. Na linguagem jovem, há desvios sim, mas intencionais, pois o faz com a finalidade de reforçar a sua mensagem. É o que veremos nas análises das produções escritas abaixo.
Nas produções escritas, normalmente a língua tende a ser mais cuidada, mais elaborada por isso mesmo acaba ficando cada vez mais restrita ao necessariamente formal. Os jovens trazem a informalidade da conversação para a escrita. Comunicam-se, eficazmente, por meio das interjeições, dos parágrafos entrecortados, dos desenhos, etc..
Existem diferenças significativas entre a língua escrita e a língua falada em todos os níveis da estrutura lingüística. Existem as diferenças tanto na sintaxe quanto na morfologia flexional. “Aquele menino que eu vi ele ontem está hospedado com sua prima” é uma construção jamais aceita pela escrita formal, em contra partida, o futuro mais-que-perfeito não existe mais na língua falada assim como o futuro do indicativo está caminhando para o mesmo final (falarei/ vou falar). Os verbos rebuscados que não fazem mais parte do vocabulário oral passaram a deixar de existir também nos diálogos escritos informais. Os verbos que parecem estar assumindo uma tendência do inglês (um verbo pode ser usado para várias situações diferentes) andam invadindo a escrita jovem.
Uma outra característica da oralidade que foi incorporada à escrita são os processos de formação. A linguagem formal, por exemplo, é objetiva (expulsa a expressão direta da emotividade). Esse traço, a expressão de atitudes emocionais são recursos da linguagem coloquial (ex: adjetivos diminutivos, aumentativos, adjetivos pejorativos). E o que ocorre é a transposição desses traços emocionais para o texto escrito.
A língua jovem é outra. Sabe-se que na língua escrita já são aceitas algumas mudanças como os neologismos, mas, na linguagem adolescente, esses neologismos se modificam. As abreviações, traços escrito, adquiriram novas dimensões. Os jovens as usam como maneira de códigos. Tudo pode ser abreviado e o motivo disso é a crescente necessidade de rapidez ao escrever e rapidez ao interpretar (receptor). Para eles escrever todas as palavras completas é sinônimo de prolixidade, ou seja, perda de tempo ou em outras palavras está “out”.
Ocorrem em textos escritos alguns tipos de neologismos fonológicos. Alves (2002, p.11) cita que existem a criação onomatopaica e os recursos fonológicos. A criação onomatopaica, muito usada em textos eruditos e poéticos, tem invadido a escrita informal assumindo uma roupagem nova, uma vez que representa sons e expressões que são utilizados na oralidade, como: riso, raiva, beijo. Os recursos fonológicos que aparecem com a troca de alguns fonemas. Essas trocas não alteram, quase sempre, o entendimento da palavra e recebe transformação ao nível do significante (tchurma (turma); xou (show)). Algumas das várias formas grafadas com “x” foram introduzidas pela apresentadora Xuxa.
Alem dos neologismos que existem na escrita e que são modificados pelos jovens há, também, algumas classes gramaticais que funcionam como marcadores da fala. Alguns desses marcadores, que são muitos usados pelos falantes nos momentos informais, andam sendo encontrados na forma escrita. Baseado nas informações retiradas de Castilho (1998, p.47), nos textos analisados foram encontrados: marcadores prosódicos (alongamentos, pausas, velocidade da fala), os marcadores não-lexicais e lexicais (advérbios de enunciação, verbos e adjetivos).
A seguir são analisadas produções escritas, elaboradas por jovens de 7ª série, pertencentes à classe média alta, que estudam no Colégio Santo Antônio que fica na SGAS 911[10]. Seus nomes completos serão preservados, mantendo sua privacidade, ficando somente seus escritos e seus primeiros nomes. Renata (14anos), Jéssica (14 anos), Eduardo ou Dudu (15 anos) e Silvana (s.id. residente em Portugal)[11].
Foram selecionados textos de pelo menos três jovens que estudam na mesma sala e se intercomunicam com freqüência e uma carta de uma colega de grupo que se mudou para Portugal e continua se comunicando com uma delas por carta. Todos eles guardam todos os bilhetes e correspondências que recebem. A exceção de uma correspondência, esses escritos são produzidos muitas vezes dentro de sala, durante as aulas regulares tanto que quase todos são escritos em papel pautado (de caderno).
Uma curiosidade do grupo é que eles atribuem aos outros integrantes do “clã” e professores uma denominação muito peculiar. (mãe, pai, tio, sobrinho, irmão, etc)[12]. Em cada título que atribuem, junta-se a carga emocional advinda de seu relacionamento. Na produção escrita nº. 12, existe o Jeh, minha subrinha.
Em quase todas as produções escritas em questão não há o uso de pontos e vírgulas. Os sinais são reticências, pontos de exclamação, interrogação, desenhos e onomatopéias os quais são parte importante da mensagem visto que possui toda a carga emocional muito utilizada na oralidade e que os jovens conseguiram transcrever aqui. Uma outra característica interessante desses textos é a quase inexistiria de acentos. Os agudos, na maioria dos casos são substituídos pelo “h” Jeh, tah, eh, neh, soh, lah, ateh(1), moh(7)) [13]; o mesmo ocorre com o acento circunflexo, muitos também deixaram de ser acentuados. As sílabas que receberiam esse acento, apesar de não estarem grafados não deixam de ser entendidos no contexto. Percebe-se que os parágrafos não seguem a estrutura formal das redações, porém cada parágrafo contém uma idéia central. São parágrafos simples, mas carregada de mensagem perfeitamente compreendida pelo outro colega. Apesar de estarem em papel pautado, o texto não obedece as linhas mostrando o caráter livre do adolescente, ou seja, eles acabam como o escrito no meio da página, saltam muitas linhas para começarem a escrever o outro parágrafo e assim por diante. As palavras consideradas de baixo calão pela educação formal estão presentes em quase todos os textos como: fudida, kra, kct, kramba [14]. As gírias também estão muito presentes nos textos como: zoando, zoa, puts (3), mauz (6), vaza (5); véi, d boa (4), d zoa, di kra, marquei geral, pouxa[15]. As onomatopéias assumem a dianteira como exemplo: snif snif, buááááá (4), Ahhh, ehhhh(6). Estrangeirismos como: big, friend, best friend e 4ever (forever). O uso do X assume varias nuances. Como maneira de expressar carinho, ao imitar uma criança que não sabe falar e por isso é bonitinho têm-se: xabe, axima, xei, axim, xabia, xau, primuxos; miguxona, vx[16]. O X também é usado como marca da variação lingüística do RJ em tais casos: maix, ixqueci, ixcrevu, dixcubriu, ixcola(4) [17] . Como também marcas da fala do mineiro como: a nem, baum naum, naum [18]. Também há as ditongações como: faiz, tow(4,6), beim(2, 6,), teim(4), pouxa(1) [19]. Há também a supressão de vogal como em dexu, miga. Uma outra característica é que as palavras terminadas em “ão” são alteradas para “aum” como: noçaum, naum, intaum, baum(6); mtaum, bjaum(5) [20].
As abreviações (neologismos) estão por toda parte. O “você” está representado de várias formas (c, vc, vx (4)), além dessas abreviações conhecidas e já incorporadas existem aquelas inovadas como: fik, mt, ms, cmg, kra, geo, (4); pq, flo, pra, mo, pt, ñ, math, dps (3); flei, cine, tbm, oq, fkar, pd, td (1); kbça, nda, bjoks, dond (7), tva, fikria, musik, dexo (8) [21].
Uma outra coisa interessante de observar é que esses jovens substituem a letra pela representação fonética como, por exemplo: Quantu, voutandu, tantu, genti (1); aki, ki, isoladu, zuandu, sériu, keru, kair, im, cum, u, vuando (4); tenhu, comu, pirralhu, fiko, mi, sacu, duranti, kiria (6); intaum, deformadu (4); funcionandu, captandu, lixu (7); dançamu, abraçadu, fikaria, ispero (8) [22].
Podem ser citadas como atitudes emocionais expressões como: miguxona, Renatinha (5); pequetita, migua, primuxo. Podem ser citados como marcadores da fala: beim, ou, tipo (2), nossa, putz, uhel, (3); ow, kct (cacete), eh, neh, (4); kra (cara), xabe (sabe) (9); Olááá, ah, nosssa, ahhh, d boa, kramba (4).
Por meio das observações feitas, percebe-se que a juventude está transportando, da linguagem informal, traços marcantes para a sua escrita. Isso não significa que eles não estão aprendendo nada e nem que seus pais estão jogando dinheiro na lata do lixo pelo contrário, essa linguagem faz parte da identidade adolescente, não significa retrocesso e sim um momento rico em criatividade e desprendimento que cessa tão logo adentra o status adulto (salvo exceções– patologia). Como dito anteriormente, eles fazem uso dos desvios da linguagem propositalmente, seja para romper com velhos padrões, seja para se auto-afirmarem como indivíduos ou para selecionarem quem querem que os entendam. O fato é que a adolescência o resultado das teorias lingüísticas que pregam que os professores não devem tratar os alunos como um vaso vazio onde eles depositarão o conteúdo formal e desrespeitando, assim, todo o seu letramento informal. Por meio de sua escrita e das comparações das correspondências fica claro que eles fazem uso tanto de seu letramento informal como do seu letramento formal. Eles sabem aplicar com muita competência (De acordo com a aprendizagem do conteúdo programático[23] referente à série cursada) a norma padrão no momento em que julgam necessário.
Nas produções escritas de nº. 10 e 11, fica patente a sua adequação. A produção escrita número 11 foi redigida por uma colega da Jéssica residente em Portugal. Pelo fato de estar distante do Brasil e consequentemente de seu grupo, além de está fazendo uso de uma correspondência formal, ela escreve totalmente diferente da colega. A sua carta obedece a uma regra. Os sinais de pontuação voltam a ser usados em seus devidos lugares, não há abreviações, as letras maiúsculas são utilizadas, quase não há traço de emoção. A outra produção escrita, número 10, é um bilhete escrito por Eduardo (Dudu) e dado à sua professora de português. Ele chega a ser rebuscado na escolha das palavras. Comporta-se de maneira formal, lança mão da objetividade própria da escrita, da concisão da mensagem. É muito fácil observar a diferença dessa escrita em relação à produção escrita de número 7 e 8 do mesmo autor.
Apesar das controversas, o jovem adolescente está plenamente inserido no segmento da sociedade que compete a ele. Por meio dele se consegue observar que os jovens são mais que “aborrescentes” são uma célula viva em mutação promovendo mudanças e reflexões.
[1] Empréstimos são a incorporação na forma original ou aportuguesada de palavras provenientes de outros idiomas. (futebol – football, game, set, Chat, etc.). Transferências são a utilização de expressões já existentes e com um determinado significado em um outro momento cultural e ás vezes com sentido diferente (mina, cara, guria...). (Ernani Terra – 1997)
[2] “Conjunto das características biológicas, psicológicas, sociais e culturais que confere a unidade ao fenômeno adolescência”. (Luiz Carlos Osório – 1989)
[3] “hormônios em ebulição” processo biológico normal na puberdade que a secretação de hormônios que começam a atuar de maneira mais intensa sobre o organismo.
[4] Pensamento contido em: “O mal-estar na cultura” (1930) e “Totem e Tabu” (1912-3).
[5] “No final desse período, o indivíduo teria, estabelecido sua identidade sexual e relações afetivas estáveis; teria capacidade de assumir compromissos profissionais conseguindo manter-se; teria adqirido sistema de valores pessoais (“moral própria”); conseguiria estabelecer relação de reciprocidade com a geração precedente (sobretudo os pais)”. (OSÓRIO, 1998)
[6] “Não se pode dizer simplesmente que o adolescente busca ter uma identidade. Ele tem uma identidade a do adolescente que é justamente a que lhe permite seguir o curso de seu desenvolvimento” (Knobel (SR) citado por Osório, 1998).
[7] Luiz Carlos Osório. “Adolescente hoje”. 1998.
[8] Gíria dos malandros, a dos jovens, a dos surfistas, a do futebol, etc.
[9] A gramática considera “erro” o desvio da Norma quando se dá por ignorância, por não conhece-la”. (Ernani Terra. 1997. pp.).
[10] A análise foi realizada por Valéria de Carvalho Moutinho baseada em teorias escritas por: CASTILHO, (1998); CHALHUB (2003); ALVES (2003).
[11] As produções escritas foram cedidas pelos próprios jovens já citados e entregues no dia 9 de novembro de 2004 pela professora Valquíria Aires Gomes (Literatura Infanto-juvenil – UniCEUB) e que também ministra no Colégio Santo Antônio a disciplina de Língua Portuguesa.
[12] Informação prestada pela professora Valquíria Aires Gomes.
[13] Jé, ta, é, né, só, lá, até, mó.
[14] fudida, caralho, cacete, caramba.
[15] Divertindo-me, rindo de mim, o que é isso. Muito triste, ir embora, amigo, é verdade, sem brincadeira, impressionado, vacilei poxa!
[16] Sabe, acima, sei, assim, sabia, tchau (ex. 9); primos fofos (ex. 1); amigona (ex. 2), você (ex.4).
[17] Mas, esqueci, escreveu, descobriu escola (ex.4).
[18] Não me diga!, bom né?, não (ex.)
[19] Faz, tô (redução de estou) (ex.4,6), bem (2,6), tem (4), poxa (1).
[20] Noção, não, bom (ex.6), muitão(intensidade), beijão (ex.5).
[21] Fico, muito, mas, comigo, cara, geografia, porque, falou, para,muitão, puto, não, matemática, depois, falei, cinema, também, o que, ficar, pode, tudo e todo, cabeça, nada, beijocas, de onde, tava, ficaria, musica, deixa eu...
[22] Quando, voltando, tanto, gente, aqui, que, isolado, zoando, sério, quero, cair, em, com, o, voando, tenho, como, pirralho, fico, me, saco, durante, queria, então, deformado, funcionando, captando, lixo, dançamos, abraçando, ficaria, esperando.
[23] Conteúdo Programático de 7ª série de Ensino Médio: Análise morfossintática, fonética e fonologia, Regência e Concordância verbal, Período Composto por Subordinação e Crase.
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