Terça-feira, Setembro 25, 2007

CONSIDERAÇÕES INICIAIS


Não se pode falar de escrita como manutenção do poder sem se entender o que venha a ser a oralidade e a escrita e qual a sua relação como o ser humano. O homem é um ser social consequentemente comunicante. A raça humana surgiu há 35 mil anos mas, estudiosos especializados mostraram que a partir desse período, chamado Paleolítico Superior começaram a surgir indícios da existência de pintura e de gravação em abrigos rochosos e cavernas o que foi considerado pelos antropólogos como o surgimento de uma raça visto que essas marcas culturais co-existiram, em várias cavernas, em vários lugares do planeta ao mesmo tempo histórico. Para alguns historiadores, como Aquino, Franco e Lopes (1980, p.4), o surgimento do indivíduo está relacionado com a condição do fazer humano (idéias, arte, cultura). Para eles, o homem é muito mais cultural do que biológico. Uma vez considerado como raça, eis que surge aquele que começa a se comunicar com o mundo de maneira mais expressiva. Essa melhor comunicação se deu, além do cérebro grande, também pelo fato de o homem ser o único mamífero a ter a laringe mais abaixo na garganta permitindo a produção de uma maior gama de sons. Sabendo que as palavras são senhas para o mundo humano, a linguagem é o principal instrumento na formação do mundo cultural humano e hoje temos um homem plenamente “consciente” e comunicativo.
A comunicação oral não surgiu apenas da capacidade orgânica e de um cérebro competente, o homem é um ser que está inserido em uma sociedade determinada e específica e tem a necessidade de mostrar, trabalhar e representar sua realidade. Essa característica criou um ambiente favorável para a construção e sedimentação de uma maior liberdade ideológica de expressão. A escrita literária e as demais maneiras de arte são na verdade, as conseqüências naturais do pensar e refletir da nossa espécie.
É fato que a arte, a pintura, a escultura, a música, a escrita simbólica, sempre fizeram parte das culturas, algumas vezes com maior expressão, outras vezes com menor expressão. Impossível negar, também, que desde o surgimento da escrita alfabética, pelo menos na cultura ocidental, a expressão por meio da grafia assumiu uma força muito grande de “autenticação” da verdade observada pelo ser pensante. Aprende-se na escola que a escrita foi o divisor de águas entre a pré-história e a história. Ao parar para perceber mais atentamente, chama a atenção que até a postura no ato de escrever convoca o homem a assumir uma “certa” posição reflexiva. Na obra intitulada História das Sociedades (AQUINO, FRANCO E LOPES, 1980, p.3), são encontrados comentários que corroboram com a idéia a cima. Os autores dizem que o homem ao juntar palavras com sentido ”real” para o escritor, este sente brotar idéias que refletem e organizam sua maneira de conceber o “mundo”.
Pensamento, consciência e escrita parecem andar juntos. Aranha e Martins (1995, p.5) comentam que na Grécia, considerada o berço da civilização, surgiu primeiramente a filosofia para depois surgir a escrita. Pode-se pensar sem registrar graficamente em um papel suas idéias mas não se pode escrever sem elaborar um pensamento. Talvez venha daí a força da escrita.
Baseado nos estudos a respeito do tema fica claro que de todas as linguagens, a mais importante foi a gráfica pois permitiu à fala humana existir sem a presença de um som emissor.
“Entregamos nossos sentimento quando falamos e nossas idéias quando escrevemos: Escrevendo somos forçados a tomar todas as palavras na acepção comum; dizendo tudo como o escreveríamos, não fazemos mais do que ler falando”. (RUSSEAU apud ARANHA e MARTINS, 1995, p. 6 )

A verdade é que a escrita, seja ela qual for, sempre foi uma maneira de representar a memória coletiva, religiosa, mágica, científica, política, artística e cultural. Após a invenção do livro e da imprensa, que foram os marcos da história da humanidade e da invenção da escrita, surgiram novas formas de materialização da memória coletiva. É quase impossível não associar ao homem o ato de ler e escrever. Aprender a ler e escrever é tão comum quanto comer, andar, falar. Cagliali (1989, p.103) diz que a escrita tem como objetivo a leitura. A leitura tem como objetivo a fala. A fala é a expressão lingüística que se compõe de unidades (signos) caracterizados pela união de significante e significado; que a escrita tem como objetivo primeiro permitir a leitura. A escrita é uma interpretação da leitura que tem por significado traduzir os símbolos escritos da fala. Cagliali (1989, p.96-115) diz, ainda, que alguns tipos de escrita se preocupam com a expressão oral e outros simplesmente com a transmissão de significados específicos, que devem ser decifrados por quem é habilitado. O autor acredita que a escrita precisa ter um objetivo definido, que é fornecer subsídios para que alguém leia. A leitura está condicionada pela escrita, mesmo que a restrição seja somente semântica. Ela exprime um pensamento estruturado por outra pessoa que não é o leitor falante.
Buscando ainda em Cagliari (1989, p. 96-115) muitos sistemas de escrita desenvolveram-se através de desenhos mas a escrita, propriamente dita, começou a existir no momento em que o objetivo do ato de representar pictoricamente tinha como endereço a fala e como motivo fazer com que por meio da fala o leitor se informasse a respeito de alguma coisa. Para ele, varias são as funções da escrita. A função informativa é a primeira porém, não é a única e nem sempre a principal.
O mesmo autor (CAGLIARI,1989, p.106,108) esclarece que a história da escrita pode ser dividida em três momentos: a pictórica, a ideográfica e a alfabética. A fase pictórica se distingue pela escrita através de desenhos ou pictogramas. Ex. inscrições antigas, nos cantos Ojibwa da América do Norte, na escrita asteca e mais recentemente nas histórias em quadrinhos. A fase ideográfica se caracteriza pela escrita através de desenhos especiais chamados Ideogramas. Esses desenhos foram ao longo de sua evolução perdendo alguns dos traços mais representativos das figuras retratadas e tornaram-se uma simples convenção de escrita. As letras de nosso alfabeto vieram desse tipo de evolução. A letra “a” teve sua origem no desenho da cabeça de um boi (escrita egípcia). O “x” representava o peixe; o “o” era a figura de um olho, etc. As escritas ideográficas mais importantes são a egípcia, a mesopotâmica (suméria), as escritas da região do mar Egeu (cretense) e a chinesa. A fase alfabética se caracteriza pelo uso de letras. Apesar de terem se originado dos ideogramas, a escrita perdeu o valor ideográfico adquirindo a função fonográfica. Como exemplo disso pode ser citado o semítico, indiano e o greco-latino.
Os sistemas de escrita podem ser divididos em dois grupos: os sistemas de escrita baseados no significado (escrita ideográfica) e os sistemas baseados no significante (escrita fonográfica). A nossa sociedade ocidental possui essas duas formas bem distintas. No primeiro sistema vemos os sinais de trânsito, símbolos e ícones e no segundo sistema vemos a própria escrita.
O fato é que apesar da escrita ser reconhecidamente tão importante para filósofos, cientistas e estudiosos da língua, no meio do povo a realidade é outra. Cagliali (1989, p. 96-115) nos ensina que em todas as localidades do mundo, principalmente nos países mais subdesenvolvidos é perceptível uma grande diferença de valor em relação a aquisição da escrita. Nesses casos, a tarefa de alfabetizar se torna mais difícil pois, de um lado, se tem grupos sociais que encaram a escrita como uma simples garantia de sobrevivência na sociedade e, de outro lado, se tem os grupos sociais que acham que a escrita é muito necessária além de ser uma forma de expressão individual de arte e de passatempo. Dessa diferença de valor em relação a aquisição da língua brota a relação de dominância, o surgimento da hegemonia social e escrita.
Nos capítulos que se seguem, será abordada, de maneira mais direcionada e seqüenciada, a relação da escrita com a sociedade e a hegemonia além de observar como está se comportando a língua escrita no meio dos jovens. Como eles estão rompendo, de uma certa forma, com essa hegemonia ao incorporarem explicitamente traços da fala no sistema rígido chamado escrita.

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