terça-feira, setembro 25, 2007

A ESCRITA COMO FORMA DE MANUTENÇÃO DO PODER


Vários estudiosos perceberam que a linguagem está presente em todas as sociedades humanas mas a escrita está presente somente em algumas sociedades. Para Rousseau (apud AUROUX, 1998, P.67), a arte de escrever não resulta da de falar e sim de necessidades de uma outra natureza que nasce mais cedo ou mais tarde conforme circunstâncias totalmente independentes da duração dos povos e que poderiam nunca ter sobrevivido em nações muito antigas. Levi-Strauss (apud AUROUX, 1998, p. 67) interpertou essas necessidades e essas circunstâncias como o nascimento de novas formas de poder: “O único fenômeno que aparece sempre e em toda parte ligado ao aparecimento da escrita, não somente no Mediterrâneo oriental, mas na China proto-histórica e até nessas regiões da América onde esboços de escrita apareceram antes da conquista, é a constituição de sociedades hierarquizadas que se encontram compostas de senhores e de escravos, de sociedades que utilizam, uma parte de sua população para trabalhar em proveito da outra parte”. (LEVI -STRAUSS, 1961. pg. 32 apud AUROUX, 1998,P.67).
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Auroux (1998, p.70-73) menciona que é incontestável que o escrito só aparece e se mantém em sociedades fortemente hierarquizadas. Que a escrita apareceu primitivamente na esfera econômica, e que a escrita esteve inicialmente ligada à contagem e repartição dos bens; mas esclarece que nem sempre isso traduz a verdade, uma vez que existiram sociedades que não usavam a escrita como forma de contagem, que é o caso da sociedade asteca. Mas pode-se concluir que a língua escrita esteve e está fortemente ligada a todos os aspectos significativos da sociedade. Transita pelo mítico e cultural, passa pelo econômico e político, associa-se ao religioso, interage com o social e tudo sem perder a ligação e relação direta com o poder. Saber escrever é sinônimo de domínio em quase todo o mundo se não for nele todo. Ao observar com mais clareza esse conceito de domínio pela escrita também evoluiu ou se sutilizou com o passar da história. Abandonou o domínio físico (força bruta), adotou uma postura de domínio intelectual derivando para o tipo mais sutil de domínio porém mais significativo que é o ideológico (aquele visto na nossa sociedade).
Esse domínio não surgiu do nada. Teve uma história e lógica. Gnerre (1998, p.11-18) comenta que associar a uma determinada variedade lingüística o poder da escrita foi nos últimos séculos da Idade media uma operação que respondeu às exigências políticas e culturais. O autor (GNERRE, 1998, p.13) prossegue dizendo que no contexto da corrida para as conquistas coloniais e da concorrência entre Portugal e Espanha começou a ser elaborada para a língua portuguesa uma construção ideológica para elevá-la e ordená-la nos moldes gramaticais. Cita o autor (GNERRE,1998,p. 13) que Fernão de Oliveira, na introdução de sua gramática em 1536 já mencionara a expansão da Língua Portuguesa entre os povos das terras descobertas e conquistadas. Gnerre (1998, p. 14) lembra, ainda, que a língua é um instrumento de poder nas relações externas e também as relações internas. Que Nebrija (apud GNERRE, 1998, p. 14) teria dito que a língua sempre acompanhou a dominação e a seguiu de tal modo que juntas começaram, juntas cresceram, juntas floresceram e afinal sua queda foi comum.
Quanto à questão de a língua escrita ser um instrumento de poder, tanto externa como internamente, a edição de dezembro de 1966 da revista O Foco, publicada pela Associação das Universidades de Língua Portuguesa sob a direção da sociolingüística Maria Marta Pereira Scherre, traz um artigo que esclarece que toda língua tem uma história externa intimamente relacionada com a interna. Na história externa são estudados os fatos políticos, sociais e culturais que influenciariam ou tiveram conseqüências lingüísticas. Na história interna são estudadas as transformações fonéticas, morfológicas, sintáticas e semânticas pelas quais a língua passou bem como a constituição de seu vocabulário, seu substrato, os estrangeirismos, empréstimos e neologismos.
Para melhor entender a língua como forma de poder é preciso fazer um apanhado rápido ou um levantamento sucinto, com mira na história das civilizações, da relação intrínseca entre escrita e a situação de dominância. Poderiam ser levantadas todas as informações sobre o comportamento da escrita em todas as línguas e civilizações, mas não é necessário. Observando a história da língua latina, comparando-a com a história no Brasil, já se consegue uma noção mais ampla sobre o tema.
Segredo não é que o português, assim como as demais línguas românicas, descendeu do latim. A história dessa língua dita morta inicia-se com a fundação de Roma e está totalmente ligada à ascensão e à queda do Império Romano. Os latinos devem ter chegado na região de Láscio por volta do século IX ou VIII a.C quando fundaram Roma sua capital. Permaneceram algum tempo submetidos aos povos que lá estavam, os etruscos, porém, logo a característica bélica e conquistadora daquele povo se sobressaiu iniciando, dessa forma, sua história de conquista e domínio. Dominaram as populações pré-romanas (Sabinos, volscos, etruscos, e posteriormente o umbro e o osco). Conquistaram a Itália (272 a.C) e com isso continuaram a se expandir pelo sul, norte e nordeste da Península Itálica até chegar em Dácia (107 d.C). Mediante todas essas conquistas, em contato com outros povos, a cultura e a língua dos latinos foram evoluindo. O latim que antes era uma língua tosca e rude, falada por agricultores e pastores, foi se transformando, por meio das influências culturais, principalmente a grega, em uma língua aprimorada a ponto de produzir uma rica literatura.
Assim como na Língua Portuguesa, o latim era usado de formas diferentes. Havia o latim culto, falado e escrito por literatos e pessoas escolarizadas e o latim comum falado pelas comunidades comuns em situações informais. Também como o português brasileiro, o latim literário era escrito, rígido e sujeito às regras, estilizado e se conservou com poucas ou nenhuma alteração. Já o latim dito vulgar, era uma língua viva e como toda língua viva e falada, evoluiu no tempo e no espaço, transformando-se, lenta e progressivamente, nas línguas neo-latinas ou românicas modernas. A língua culta escrita agiu como inibidora das inovações excessivas, exageradas, da língua falada.
Diferente do acontecido com o povo brasileiro, os romanos, com todo o seu poder e destaque, não impuseram arbitrariamente sua língua aos vencidos que, frequentemente, conservaram suas terras, suas cidades, seu culto e sua administração local. A aceitação se deu de maneira voluntária o que representou a conseqüência da supremacia política, comercial e cultural do Império. Como isso se deu? Roma estabelecia metodicamente sua administração. A língua da administração, dos altos negócios, dos estabelecimentos de recreação e esporte, dos teatros e de toda a vida social era o latim. Quem quisesse se inserir precisaria, necessariamente, aprender a língua padrão. Além disso, o latim era a língua oficial ensinada nas várias escolas fundadas pelo Império especialmente na Gália e Espanha. Dessa forma o latim conseguiu manter uma certa unidade da língua. As igrejas também adotaram o latim para os sermões e como o povo sempre esteve submetido à égide do “ministro” ou “representante” de Deus na terra, o fato de ser a língua oficial da igreja deve ter promovido a associação, mesmo que inconsciente, do latim a Deus, ao poder, ao “certo”. Nesse sentido, como se manteve tanto tempo no domínio, a igreja foi responsável pela difusão dessa língua padrão dentre outras culturas.
Como uma língua tão popular e poderosa pôde se extinguir? Nas relações externas, interculturais, a língua padrão escrita, está juntamente no poder com o seu país e está fora dele também juntamente com seu país. Com a crise que assolou o império romano a partir do século III a unidade da língua abalou-se. Associada à crise econômico-social ocorreu a crise político-administrativa. Com a dissolução do Império e a queda do poder aristocrático houve o crescimento da liberdade do latim vulgar, popular, que se desenvolveu autonomamente em cada região gerando no século IX, o francês, o italiano e o provençal e no século XI ou XII surgiu o espanhol e o português ( tornou-se independente no século XIV e XV).
A partir do século XV, Portugal dá início à sua expansão e como se sabe, em 1500, chegou ao Brasil e disse que o tinham descoberto. Os portugueses esqueceram os habitantes nativos que aqui se encontravam. Mas como respeitar esses nativos se não eram “brancos”, não falavam português, não eram católicos e não tinham escrita? Mais uma vez a idéia de letrados subjugando iletrados; a cultura formalmente letrada subjugando a informal ou local e popular. Estabelece-se aqui o domínio social, cultural e ideológico. O fato é que no Brasil não aconteceu muito diferente do que aconteceu em Roma. A partir de 1532, o território brasileiro foi dividido em 15 capitanias. A princípio tentaram usar a força física dos índios mas eles eram arredios e em grande quantidade. Arrumaram outra mão de obra e deixaram os jesuítas brincarem de papais ao catequizarem os nativos. Os Jesuítas satisfaziam seu ego de missionário e ajudava os portugueses a manter o controle sobre eles. Voltando para a história, aqui se criou uma língua geral que objetivava a interação entre Índios e brancos. Essa língua era facilmente aprendida pelos brancos e pelos nativos de outras tribos além de coexistir com o português ensinado nas escolas. Esta também coexistia com as demais línguas indígenas (línguas travadas). Os brasileiros eram bilíngües. A partir da segunda metade do século XVIII, a língua geral entrou em declínio, o português foi-se impondo pois os brancos, certos de sua superioridade, procuravam difundir seus padrões de cultura, principalmente a língua. Podem ser citados como causas disso: a chegada de um número cada vez maior de imigrantes portugueses atraídos pelo ouro; a proibição do uso da língua geral e a obrigatoriedade do uso da língua portuguesa (oficial); expulsão dos jesuítas; etc.
Apesar de bilíngües e portanto, experimentarem uma certa liberdade de escolha quanto à língua, não pode ser esquecido que o português predominou durante a existência e coexistência da língua geral. A língua branca era usada nas escolas, na administração, nos contatos, transmissões e casamentos.
O domínio da cultura européia sobre a indígena se consolidou no final do século XVIII. De acordo com a história, de 1724 a 1758 surgiram as Academias; foi publicado a primeira edição do dicionário e começou a formar-se uma geração desejosa de se emancipar de Portugal. Esse desejo de liberdade não era no tocante a Língua mas no tocante ao espírito e ao sentimento literário. Um século depois da Independência oficial, o movimento literário do Modernismo em 1922 ressuscitou a questão da língua brasileira mais associada à oralidade da língua. Uma visão nacionalista. Foi a partir do Modernismo que o Brasil alcançou sua independência lingüística e cultural.
É fácil detectar que o percurso evolutivo da língua portuguesa em Portugal foi muito diverso daquele que ocorreu no Brasil. A língua portuguesa do Brasil é a mesma de Portugal tendo como diferença apenas a norma. O suficiente para serem praticamente duas línguas distintas. nas liva e falada, evoluiu no tempo e no espaço, transformando-se lenta e progressivamente alado pels comunidades comuns em si Partindo dessa idéia de norma, a língua brasileira não é apenas diferente da língua de Portugal, ela também tem diferenças importantes dentro de um mesmo espaço geográfico político. Dentro do nosso país, no tocante à escrita, há muitas diferenças lingüísticas o que se dá pelo fato de a língua oral e a escrita evoluírem em tempo e modo diferentes.
Mais uma vez associando a escrita e o poder, é sabido que a historia do Brasil é recheada de lutas de poder. Quanto á língua, essas lutas não são menos sérias. O assunto predileto nos estudos acadêmicos na atualidade é a questão do preconceito lingüístico. Afirmam que isso deve acabar e que o professor deve conscientizar os alunos para a existência das diferenças lingüísticas em decorrência da enormidade territorial associado às influências culturais estrangeiras. Isso é válido. Mas a consciência deve adquirir um tom mais profundo. O preconceito racial foi substituído como rótulo pelo preconceito social que foi substituído ou modificado pelo lingüístico que já está a caminho de uma diminuição mais significativa, porém, o problema é maior do que a dominação do escrito sobre o oral ou padrão sobre o não padrão. A dominação não é explicitamente social ou racial e sim sutilmente ideológico. As classes menos favorecidas já sabem ir às ruas brigar por mais humanidade e cidadania. Os discursos diretos e preconceituosos não funcionariam mais, o que os espantariam e os rebelariam. Por isso a hegemonia é mais velada, mais disfarçada.
A primeira questão a ser levantada é por que há o preconceito. Não seria lógico escrever como se fala? Onde nasce a diferença tão significativa entre o falado e o escrito? Por que o escrito é tão poderoso? Será que essa discussão não está empanando uma hegemonia ainda maior?
Não é difícil adquirir algumas respostas ou reflexões pelo menos quanto aos primeiros questionamentos. Como já foi dito anteriormente, a língua está em constante mutação e assim como aconteceu na língua latina que se modificou e se transformou em outras línguas, o português chegado da Europa e implantado no Brasil também se modificou se transformando na língua que conhecemos. Daqui a algumas décadas ou séculos, a língua brasileira conhecida não será a que estará em voga no momento. A língua está em constante modificação porque a sociedade também muda constantemente.
A verdade é que não se escreve como fala e que a língua escrita é mais conservadora que a falada. Com a finalidade de ilustrar ou exemplificar, Gnerre (1998, p.5-10) afirma que há a possibilidade de se perceberem fenômenos inovadores em expansão na fala que não alcançaram a escrita ou seja, ao escrever o falante nativo sente dificuldades em usar certas estruturas correntes na fala e que são inaceitáveis na escrita por exemplo: o livro em que mais gostei foi...(Fontes LE) e O livro que mais gostei foi...(fortes LO). Auroux (1998, p.68) esclarece que alguns fatores contribuem para o conservadorismo da língua escrita. Ela é realizada por meio de uma substância mais duradoura que o som e por isso tem uma dimensão de permanência favorecendo assim o exercício do controle social mais intenso sobre ela do que sobre a fala. Disso resulta a preservação de padrões mais conservadores de linguagem e conseqüente bloqueio à entrada de formas inovadoras. Um outro fator é que as atividades escritas estão na maioria das vezes, ligadas a contextos sociais marcados por formalidades. De acordo com a sociolingüística há forte ligação entre situações formais e o uso preferencial de formas lingüísticas mais conservadoras: o falante para satisfazer as expectativas sociais, procura evitar nesses contextos usar vernáculos.
É fato que as inovações da fala, já aceitas em muitas situações formais da fala, são criticadas na escrita. Por que isso? Auroux (1998, p.71) comenta que as mudanças normalmente se desencadeiam na fala informal de grupos socioeconômicos intermediários; avançam pela fala informal de grupos mais altos na estrutura sócio-econômicos chegam a situações formais da fala e só então começam a ocorrer na escrita. Muitos vernáculos falados pelos grupos sociais mais baixos (provocadores de mudanças) incomodam aos falantes pertencentes aos grupos sociais mais altos (não provocadores de mudanças). O grupo formalmente letrado taxa as expressões populares de erradas, incorretas, impróprias e feias. Mas, na verdade, essa atitude é motivada por juízos de valores que não têm nada a ver com a forma em si e sim com as peculiaridades das relações sociais visto que a classe social que promove mudanças tem baixo prestígio social e sua fala é marcada de forma negativa pelos grupos mais privilegiados social, cultural e economicamente.
Auroux (1998, p.74) conclui uma idéia dizendo que as mudanças lingüísticas estão envolvidas por um complexo jogo de valores sociais que podem bloquear, retardar ou acelerar a expansão de uma palavra para outra variedade da língua. É dever dos que são interessados na língua, ficar atentos ao fato de que a língua possui uma realidade heterogênea.
Quanto ao último questionamento, se não há um discurso que está empanando a realidade, é preciso sair do óbvio e partir para o não óbvio. Gnerre (1998, p. 20) alerta que o poder das palavras é enorme especialmente o poder de algumas. Que na variedade padrão são introduzidos conteúdos ideológicos, relativamente simples de manipular uma vez que as palavras e seus significados ficam na mão de poucos. Grupos de pessoas que detêm o conhecimento real do referente conceitual de determinadas palavras e acabam assegurando que as grandes massas, apesar de familiarizadas com as formas das palavras, fiquem na realidade, privadas do conteúdo associado. Assim fica fácil dominar.
O autor de Linguagem, escrita e poder (GNERRE, 1998, p. 20) coloca que a linguagem pode ser usada para impedir a comunicação de informações para muitas pessoas. Afirma que a linguagem usada e o quadro de referências dado como implícito constituem um verdadeiro filtro da comunicação de informações. Gnerre (1998, p.21) continua afirmando que essas informações só podem ser entendidas por ouvidos que já se iniciaram nos conteúdos a elas associados. O radio e a televisão, por exemplo, têm um alcance imenso mas as informações ficam restritas a grupos relativamente reduzidos. Percebe-se que na nossa sociedade a pessoa precisa ter um aparato de conhecimentos sócio-políticos a fim de que consigam compreender e com isso produzir e conhecer esses aparatos. Para que isso aconteça é preciso ao homem ter acesso e adquirir os códigos lingüísticos de nível alto.
Conclui Gnerre (1998, p.22) que em termos de competência lingüística nata ou letramento informal, o adulto alfabetizado não deverá ter maiores dificuldades em tornar-se um leitor de variedades da língua escrita pouco complexas como: histórias em quadrinhos, fotonovelas e alguma literatura nacional. Defende que o problema é, de um lado, de compreensão de mensagens e conteúdos e de outro lado, de produção de mensagem. Para o autor (GNERRE, 1998, p.23), a função central de todas as linguagens é social. Elas têm um real valor comunicativo mas excluem da comunicação as pessoas que estão fora do grupo que usa a linguagem especial ou formal.
Gnerre (1998, P.25,26) deixa explícito que a gramática normativa escrita é um “resto de épocas em que as organizações dos Estados eram explicitamente ou declaradamente autoritárias e centralizadas”. Prossegue o mesmo relatando que nas democracias, as pessoas que tomam as decisões para a coletividade se fundamentam e se embasam em legitimações fornecidas pelo saber de que dispõem. Mas quem deu esse poder? A escrita ou o conhecimento referendado pelas letras impressas?
Acontece que pessoas são discriminadas com base nas “capacidades lingüísticas medidas no metro da gramática normativa e da língua padrão” (GNERRE, 1998, p.22). A contradição é que o objetivo do governo com isso é “reduzir a distância entre os grupos sociais para uma sociedade de oportunidades para todos. Gnerre (1998, p.29)comenta que processos ditos democráticos e libertadores como: as campanhas de alfabetização, de aumento de oportunidades e dos recursos educacionais estão na verdade conjugados aos processos de padronização língua. Facilitam a dominação pois os grupos sociais que têm pouco contato com a variedade padrão da língua e que escrevem menos se tornam mais fáceis de serem controlados. A escrita é uma forma de poder. Ela, como padrão, seleciona os que estão no poder. Mas que poder? Não é somente pelo acesso ao código escrito que se chega a presidente. Briga-se com a escrita, acusam-na de ditadora e opressora mas ela pode se tornar uma grande aliada da classe que se diz oprimida. Os povos formalmente menos letrados necessitam transformar a escrita ou a educação formal em arma para modificarem sua realidade. A escrita formal não dá somente força de verdade aos documentos. Por meio dela se adquire todo um arcabouço teórico e de pensamento que se tornam, sim, arma de mudança social.

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