A oralidade e a escrita são modalidades importantes da linguagem humana. Elas são distintas e complementares entre si visto que cada qual possui características relevantes para a construção do pensar. Importante observar que a linguagem humana não se resume apenas nelas. Essas modalidades são alguns estágios pertencentes às diversas formas do comunicar humano denominadas linguagens. Daí ser imprescindível, antes de caracterizar e diferenciar a oralidade da escrita, primeiramente situar o ser humano no aspecto cultural; relatar e evidenciar as diversas modalidades de linguagens para depois chegar ao objetivo que está contido no título.
A cultura de um povo abrange muitos elementos. Dentre eles, o mais importante é a linguagem. Impossível pensar em sociedade humana sem aceitar a intercomunicação e interação. Essa comunicação não acontece aleatóriamente e sim por meio de uma sistemática. Cotrim (1999, p.17) afirma que a Linguagem é a capacidade que permite que os homens se comuniquem uns com os outros por meio de um código. Esse código não tem somente a finalidade de passar uma ordem ou um pedido. Segundo Edward Sapir (apud COTRIM 1999 p. 17), a Linguagem é um método puramente humano e não instintivo de serem comunicadas, idéias, emoções e desejos valendo-se de símbolos voluntariamente produzidos.
O filósofo alemão Martin Heidgger (apud COTRIM, 1999, p.17) menciona que a língua é o solo comum da cultura de um povo. Cotrim (1999) concorda ao dizer que a língua é um fato cultural e representa um dos mais fortes laços de união entre os membros de uma comunidade. Para Cotrim (1999, p. 17), o conhecimento individual de cada pessoa também se torna, por meio da linguagem, patrimônio social.
Os humanos são mais que seres biológicos produzidos pela natureza. Eles são seres culturais que modificam o estado de natureza. Chauí (1995, p.136-150) afirma que a linguagem articula percepções e memórias; percepções e imaginações oferecendo ao pensamento um fluxo temporal que conserva e interliga as idéias. Cotrim (1999 p.20) complementa sua idéia quando afirma que quanto mais alto estiver o animal na escala de desenvolvimento zoológico, mais independentes dos instintos e reflexos automáticos esse animal será. Adquirindo dessa forma um comportamento cada vez mais flexível, imprevisível, maleável às circunstâncias ambientais. Em resumo, dependendo do estágio evolutivo em que se situa o animal, mais traços de inteligência e capacidade de raciocínio serão encontrados. No mundo animal pode-se dizer que Chimpanzé e Gorila se encaixam perfeitamente nessas características. Mas, apesar das percepções das capacidades inquestionáveis existentes em alguns mamíferos, não se pode deixar de observar o abismo gigante ocorrentes entre os animais e seres humanos. O fundamento disso está na capacidade expressar o pensamento. Cotrim (1999 p.21) elucida mostrando que os humanos fazem parte da natureza uma vez que estão sujeitos às leis físicas e biológicas, porém, pelo desenvolvimento de seu psiquismo, estes podem observar a natureza, criar uma linguagem, analisar e julgar o mundo no qual estão inseridos.
Aristóteles (“A política” apud CHAUÍ, 1995 p. 136 ) diz que somente o homem é dotado de linguagem. Que os outros animais possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e com ela exprime o bom, o mal, o justo e o injusto. A linguagem humana é muito complexa e completa podendo criar além das línguas naturais como: português, inglês, espanhol, alemão, russo, japonês, uma enormidade de formas de emitir mensagens.
Não há surpresa no fato de a comunicação existir em todas as formas vivas da natureza e de que muitas dessas comunicações muito complexas e impressionantes, porém, devido a impossibilidade de tempo, não há como observar as linguagens utilizadas por todos os seres vivos sendo assim, essa pesquisa se limita à observação da linguagem humana nas mais diversas maneiras.
Andrade e Margarida (1997, p.16) comentam que a comunicação é uma palavra que tem sua origem no latim comunicare (por em comum). Sua finalidade é por em comum: idéias, sentimentos, pensamentos, desejos como também, formas de comportamentos, modos de vida, determinados por regras de caráter social.
Pode-se afirmar que o homem é um animal comunicativo uma vez que de todos os seres vivos, ele é o que dispõe dos mais variados sistemas de comunicação adaptados às diversas finalidades. As linguagens interpessoais servem ao homem como formas de estruturar seu mundo interior, pensar e conhecer, ou seja, a comunicação serve-lhe para pensar e comunicar pensamentos ou emoções.
Para haver comunicação é imprescindível a aquisição de uma linguagem, de um sistema de símbolos seja ele uma língua, um dialeto falado ou escrito, gestos, batidas, cores, uma inscrição em pedra, sinais luminosos ou sinais sonoros como os do código Morse, ou uma série de pulsos binários em um computador. Pode-se dizer que o mais importante sistema de signos e o mais complexo das linguagens é a fala humana. Bem Johnson (apud Cherry, 1974, p.129) diz que a “linguagem é o único privilégio de que o homem dispõe para exprimir a superioridade da sua inteligência sobre as demais criaturas”.
Superior ou não, o fato é que a linguagem, conhecimento e comunicação constituem fatos historicamente incompletos se não forem comunicáveis o que somente se consegue por meio da linguagem. Andrade e Medeiros (1997, p.16) citam que para muitos, a origem da linguagem se confunde com a origem das línguas. E que a linguagem apareceu e se desenvolveu para servir à comunicação. O que venha a ser comunicação todos compreendem mas e quanto as linguagens? O que são linguagens? Quais as suas características?... As linguagens animais são habilidades inatas e instintivas, a linguagem humana é habilidade aprendida. Interessante saber que as linguagens foram uma lenta invenção coletiva que se foi aprimorando com o decorrer dos séculos. É fruto da aprendizagem social ou de um grupo, espelho da cultura de uma comunidade.
Como reforço do que já foi dito anteriormente, sabe-se que os animais se comunicam entre si e que as linguagens utilizadas para a comunicação entre animais da mesma espécie são as linguagens não verbais. Como assim, linguagem não verbal? O verbo não é a alma da comunicação humana? O homem, animal racional, é o único que além da linguagem verbal, articulada, dispõe também de vários sistemas de linguagens não verbais. Já foi dito anteriormente que todos os seres vivos se comunicam, mas a comunicação vai além. Em tudo há uma mensagem. O homem, por exemplo, é um ser que se destaca pelo fato de falar e escrever o que pensa que culmina em troca de informação, mas, suas idéias também são passadas quando este faz uso das linguagens não-verbais que como não poderia ser diferente, são tão diversas como são os indivíduos da raça humana. Hoje em dia, a comunicação pela imagem ou comunicação icônica é uma realidade inconteste. Ao se pensar em comunicação formal pela imagem pode-se pensar em: sinais de trânsito, os cartazes indicativos das áreas de turismo e lazer, dos aeroportos e estações rodo e ferroviários; as placas de proibição e outros. Quando se questiona quais exemplos de comunicação sonora formal podem ser obtidos como resposta: código Morse, tambores falantes de certas tribos africanas (Congo), apitos dos guardas de trânsito, sirenes de ambulância, bombeiros e fábricas. Quando se refere à comunicação gestual podem ser mencionadas a Libra (linguagem dos surdos-mudos); a mímica formal e a informal.
A comunicação está em todo o lugar. Invenções fantásticas como: telefone, o telégrafo, o rádio, a TV, a imprensa, a comunicação a cabo e a via satélite facilitam a vida de todos, mas estão quase se tornando obsoletas visto a velocidade com que os animais racionais criam e recriam. Quando se pensa que acabou, pode-se ir mais longe no tocante ao tema. Além de todas essas formas já conhecidas e citadas anteriormente existe o estudo de outras possibilidades de comunicação, a virtual, que seriam por meio de gestos, da postura, do andar, do falar e do vestir. O homem calado e parado já está se comunicando. Essa comunicação carrega uma carga de significado e sentido muito grande.
Ao falar em gesto lembra-se da fonte primária da linguagem uma vez que segundo estudos sobre a pré-história, a comunicação gestual humana veio antes das palavras. Algumas obras, entre elas “O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não verbal” ( WEIL, Pierre e TOMPAKOV, Rolland -1986) e Dicionários de gestos” (GELABERT J. e GIFRE Martinell, 1990 apud ANDRADE e MEDEIROS, 1997, p.17) relatam que os gestos e posturas adotadas pelos falantes nas várias situações de comunicação traduzem um significado. Esse tipo de linguagens não-verbais não possui significados universais já que variam de cultura para cultura, mas nem por isso deixa de ter grande importância ou seja, contém um significado simbólico que está intimamente ligado a uma determinada cultura. Sem perder de vista que todo comportamento humano possui uma mensagem, a forma como as pessoas se vestem; o local escolhido para ficarem em eventos públicos emitem um significado. Há mensagem sendo emitida e recebida o tempo todo e a todo o momento. Importante se faz a reflexão sobre a questão de que o ser humano, em uma conversação, faz uso de várias linguagens diferentes. A raça humana mescla, muitas vezes, linguagem não verbal (às vezes mais de uma ao mesmo tempo) com a verbal. Sabe-se que o gesto, a expressão falam muito, mas, na linguagem verbal também há muita mensagem subliminar ou indireta. O fato de alguém falar de modo claro, correto, simpático, confuso, muito alto ou muito baixo também expressa uma opinião ou uma forma de pensar. Apesar de, muitas vezes, a linguagem não-verbal ser mais eloqüente do que a verbal, esta última é o meio pelo qual a expressão de sentimentos, idéias, desejos e pensamentos se concretizam. Quando se verbaliza um pensamento, a idéia contida nele adquire uma força muito maior e até modificadora do meio.
Toda comunicação se dá por meio de uma linguagem seja verbal ou não verbal. Uma vez que já foi explanado sobre a linguagem não-verbal, é imprescindível iniciar um levantamento sério sobre a linguagem verbal, própria do ser humano e que é o marco diferenciador entre a condição de homem e a de animal e à qual está associada ao pensar humano.
Quais as características da linguagem verbal? A linguagem verbal apresenta um aspecto exterior que é a modalidade oral e a escrita que estão fortemente ligados a outro interior conhecido como pensamento. Essa linguagem faz uso dos órgãos do aparelho fonador para produzir sons que associados e seqüenciados expressam idéias. O pensamento e a linguagem verbal estão tão ligados que Chauchard (1966:10 apud ANDRADE E MEDEIROS,1997, p.21) afirma que o homem só é sapiens porque é loquens (só é sábio porque tem fala). Como se vê a linguagem verbal está intimamente ligada a fala, mas, o que vem a ser isso? Realmente não se pode falar de linguagem verbal sem definir ou entender o que viria a ser a língua, a fala e o discurso na linguagem humana.
O estudo desses temas faz parte da ciência da linguagem há muito tempo. Saussure já pensava nisso. Em “Curso da Lingüística Geral”, (1977) encontra-se a diferença entre língua e fala (langue e parole) também conhecida como língua com a finalidade de entender o processo comunicativo. Para Saussure, a língua é um conjunto de potencialidades dos atos da fala. É um ato de concretização da língua.
Andrade e Henriques (1996 apud ANDRADE e MEDEIROS, 1997, p.21) afirmam que a língua é um código o qual permite a comunicação, um sistema de signos e combinações, enquanto a linguagem é uma faculdade que permite ao homem exprimir estados mentais por meios de um sistema de sons vocais chamados língua. Há diferença entre linguagem, língua, fala e discurso. O que os grandes estudiosos da área da linguagem falam a respeito disso?
Lyons (1981 p. 1) ensina que diversas línguas européias têm duas traduções para o vocábulo language. Essa diferença está relacionada, até certo ponto com a diferença entre os dois sentidos da palavra language. Em francês, a palavra langage refere-se à linguagem em geral e a palavra langue refere-se às diferentes línguas. No inglês dizer a expressão: “he possesses language” significa tanto que ele possui um língua quanto que ele é dotado de linguagem. Lyons (1981, p. 1) segue afirmando que filósofos, psicólogos e lingüistas consideram que é a posse da linguagem que diferencia o homem dos outros animais. Para Lyons (1981,p.2), a língua falada é mais básica do que a língua escrita. A língua é independente do meio em que os sinais lingüísticos se realizam. Para ele ( LYONS, 1981,p2) não há nenhuma sociedade humana que tenha nascido sem a capacidade da fala e que apesar de as línguas conhecidas em quase todo o mundo, possam ser falada ou escrita a grande maioria das sociedade, até pouco tempo, era constituída, na quase totalidade, por indivíduos analfabetos.
Sapir (1929:8 apud LYONS, 1981, P. 3) diz que “A linguagem é um método puramente humano e não instintivo de se comunicarem idéias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos”. Que a fala não é uma atividade simples de ser executada por um ou mais órgãos biologicamente a ela destinados. É uma trama extremamente complexa e ondeante de afastamentos no cérebro, no sistema nervoso, e nos órgãos de articulação e audição – em direção ao fim colimado, que é a comunicação de idéias.”.
Hall (1968:158 apud LYONS,1981, p.4) afirma que a linguagem é “a instituição pela qual os humanos se comunicam e interagem uns com os outros por meio de símbolos arbitrários orais-auditivos habitualmente utilizados” Terra (2003 p.12,13) define que a linguagem verbal é aquela cujos sinais utilizados para os atos de comunicação são as palavras. Continua dizendo que a palavra verbal vem do verbale que por sua vez provém de verbu e que significa palavra. Com certeza fundamentando-se em Saussure (1972, p.22) comenta ele (TERRA, 2003, p.12-13) que a linguagem verbal se concretiza por meio da fala que é um ato individual de vontade e inteligência.
Já que linguagem verbal faz uso das palavras para realizar um ato de fala e palavras podem ser faladas e escritas, nesse momento o homem começa a utilizar códigos de expressão muito mais complexos uma vez que com a escrita o homem se comunica, ratifica uma idéia como também altera o curso de sua história. Na escrita também entra toda a carga ideológica, social, cultural, emocional.
Não se pode confundir língua oral com escrita. São dois sistemas distintos. É uma contradição pensar que quanto mais a escrita tenta representar o real da oralidade mais ela se distancia desse oral assumindo uma forma menos flexível. É justamente do caráter individual da fala, da oralidade, que advém a diversidade da língua e dessa diversidade, o distanciamento entre a oralidade e a escrita.
Para Lyons (1981, p. 10) “a língua falada é usada em uma ampla gama de situações, servindo a escrita como substituta da fala apenas nas ocasiões em que a comunicação vocal-auditiva é impossível, inafiançável ou ineficiente” . “Foi a invenção do telefone e do gravador que possibilitou o emprego da língua falada em situações onde no passado seria usada a língua escrita (LYONS, 1981, P. 10).
Terra (2003 p.13), revela que a escrita representa um estágio posterior de uma língua, tanto que muitas pessoas utilizam a língua sem saber utilizar a escrita. Elas ocorrem em momentos diferentes e com propósitos diferentes. Continua o autor (TERRA, 2003, p.13) afirmando a existência de muitas línguas ágrafas no mundo. Ele estima que no mundo todo existem cerca de 3 mil línguas das quais apenas 110 possuem escrita.
Por meio dessa informação percebe-se que a linguagem falada é muito mais largamente utilizada que a escrita, mas é na linguagem verbal escrita que as teorias gramaticais tradicionais se baseiam tendo como base o fato de possuir um aspecto mais permanente que a oral.
Ao se falar em língua verbal escrita de um povo, nas escolas, por exemplo, logo se imagina a gramática ou o código escrito dessa língua. De fato o código da língua verbal escrita é a gramática. Muitos não sabem direito o que vem a ser uma gramática. Alguns confundem a gramática tradicional (prescritiva) com a gramática de uma língua que trata dos fatos internos da língua. Para que sejam sanadas algumas dúvidas é bom recorrer a alguns dos significados existentes no dicionário. Gramática vem do grego grammatiké (subentende-se techne) que significa arte da gramática. Do latim grammatica, é o estudo dos fatos da linguagem falada e escrita e das leis naturais que a regulam.
Terra (2003, p.56) questiona essa questão de leis naturais que regulam essa linguagem. Para ele, a norma gramatical não é intrínseca à língua, portanto não é natural. A norma é ditada de fora para dentro visto que é o uso que se quer impor aos demais. Imposta ou não, a oralidade e a escrita são mesmo modalidades distintas da linguagem apesar de confundidas em certos momentos e interligadas em outros. O que alguns teóricos pensam sobre essas modalidades da linguagem?
Para o cientista da Linguagem Sylvain Auroux (1998, p.69), a existência da escrita transforma profundamente o estatuto da fala humana. Muitas coisas são ditas sem precisar da interferência da fala. O que está escrito é insensível ao silêncio. “A escrita que parece dever fixar a língua é precisamente o que a altera. Ela não só muda suas palavras e sim seu gênio. Ela substitui a expressão pela exatidão”(AUROUX, 1998, p.71). Ele prossegue com sua idéia ao dizer que a linguagem verbal escrita foi adquirida quando ocorreu a colocação em formas fixas. Somente a escrita impõe (qualquer que seja, aliás, o tipo de representação adotado) um recorte sistemático e tornado consciente de toda mensagem em unidades gráficas discretas.
A mensagem oral pode até portar marcas da relação (simbólica e social) entre o locutor e o interlocutor, mas o escrito é muito mais universalizante. Importante observar que as sociedades “grafematizadas” admitem mais facilmente as variações orais do que as variações escritas.
E quanto à memória? Quanto à memória, as sociedades orais são diferentes das sociedades escritas. Nas sociedades orais, a reconstituição das mensagens lingüísticas se dá de maneira menos eficiente. Auroux (1998, p.70) acredita que o escrito instaura-se com mais fidelidade à letra. A instituição literária, ao contrário, considera necessário que exista um texto estabelecido definitivamente.
A não existência de um locutor, ou seja, o não compartilhar de uma situação de referência, obriga a serem explicitados parâmetros da enunciação deixados implícitos no oral. No escrito, o leitor não pode interromper a mensagem e se instaurar como locutor apesar de ter todo o tempo de retornar sobre a mensagem, de interrompê-la ou modificar-lhe a recepção, conseguindo assim, perceber melhor sua estratégia, as articulações e as fraquezas. Essa possibilidade na escrita, segundo Auroux (1998, p.71), é pouco possível com o interlocutor ante o oral.
O oral, apesar de lançar mão de todo o leque de possibilidades não verbais, para ser melhor compreendido, deve ser frequentemente redundante enquanto o escrito permite uma maior densidade da informação. A própria recepção da mensagem é diferente a cada momento de sua emissão. Auroux (1998, p.73) menciona que a grafematização está em crescimento constante. A invenção da escrita consistiu em integrar a linguagem humana ao universo dos signos gráficos. Chega a dizer que no desenvolvimento intelectual da humanidade seu aparecimento é tão importante quanto o surgimento da linguagem articulada.
A linguagem é a forma propriamente humana da comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política e do pensamento. Essa linguagem se concretiza por inúmeros meios que são aprimorados e reinventados a todo o momento. Apesar da grande invasão das imagens no mundo da comunicação, dos símbolos e ícones, o ser humano faz parte da civilização da escrita. Percorre todos os caminhos da linguagem, faz uso daqueles mais adequados, absorve suas experiências e as aplica na língua escrita. Como diz Cotrim (1999 p. 21) “No homem ocorre a síntese que integra características hereditárias e adquiridas, aspectos individuais e sociais, elementos do estado de natureza e de cultura. Por isso o homem é um ser contraditório, ambíguo, instável e dinâmico. Um produto da natureza e da cultura e ao mesmo tempo um transformador da natureza e um produtor cultural. Criatura e criador do mundo em que vive”.
A cultura de um povo abrange muitos elementos. Dentre eles, o mais importante é a linguagem. Impossível pensar em sociedade humana sem aceitar a intercomunicação e interação. Essa comunicação não acontece aleatóriamente e sim por meio de uma sistemática. Cotrim (1999, p.17) afirma que a Linguagem é a capacidade que permite que os homens se comuniquem uns com os outros por meio de um código. Esse código não tem somente a finalidade de passar uma ordem ou um pedido. Segundo Edward Sapir (apud COTRIM 1999 p. 17), a Linguagem é um método puramente humano e não instintivo de serem comunicadas, idéias, emoções e desejos valendo-se de símbolos voluntariamente produzidos.
O filósofo alemão Martin Heidgger (apud COTRIM, 1999, p.17) menciona que a língua é o solo comum da cultura de um povo. Cotrim (1999) concorda ao dizer que a língua é um fato cultural e representa um dos mais fortes laços de união entre os membros de uma comunidade. Para Cotrim (1999, p. 17), o conhecimento individual de cada pessoa também se torna, por meio da linguagem, patrimônio social.
Os humanos são mais que seres biológicos produzidos pela natureza. Eles são seres culturais que modificam o estado de natureza. Chauí (1995, p.136-150) afirma que a linguagem articula percepções e memórias; percepções e imaginações oferecendo ao pensamento um fluxo temporal que conserva e interliga as idéias. Cotrim (1999 p.20) complementa sua idéia quando afirma que quanto mais alto estiver o animal na escala de desenvolvimento zoológico, mais independentes dos instintos e reflexos automáticos esse animal será. Adquirindo dessa forma um comportamento cada vez mais flexível, imprevisível, maleável às circunstâncias ambientais. Em resumo, dependendo do estágio evolutivo em que se situa o animal, mais traços de inteligência e capacidade de raciocínio serão encontrados. No mundo animal pode-se dizer que Chimpanzé e Gorila se encaixam perfeitamente nessas características. Mas, apesar das percepções das capacidades inquestionáveis existentes em alguns mamíferos, não se pode deixar de observar o abismo gigante ocorrentes entre os animais e seres humanos. O fundamento disso está na capacidade expressar o pensamento. Cotrim (1999 p.21) elucida mostrando que os humanos fazem parte da natureza uma vez que estão sujeitos às leis físicas e biológicas, porém, pelo desenvolvimento de seu psiquismo, estes podem observar a natureza, criar uma linguagem, analisar e julgar o mundo no qual estão inseridos.
Aristóteles (“A política” apud CHAUÍ, 1995 p. 136 ) diz que somente o homem é dotado de linguagem. Que os outros animais possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e com ela exprime o bom, o mal, o justo e o injusto. A linguagem humana é muito complexa e completa podendo criar além das línguas naturais como: português, inglês, espanhol, alemão, russo, japonês, uma enormidade de formas de emitir mensagens.
Não há surpresa no fato de a comunicação existir em todas as formas vivas da natureza e de que muitas dessas comunicações muito complexas e impressionantes, porém, devido a impossibilidade de tempo, não há como observar as linguagens utilizadas por todos os seres vivos sendo assim, essa pesquisa se limita à observação da linguagem humana nas mais diversas maneiras.
Andrade e Margarida (1997, p.16) comentam que a comunicação é uma palavra que tem sua origem no latim comunicare (por em comum). Sua finalidade é por em comum: idéias, sentimentos, pensamentos, desejos como também, formas de comportamentos, modos de vida, determinados por regras de caráter social.
Pode-se afirmar que o homem é um animal comunicativo uma vez que de todos os seres vivos, ele é o que dispõe dos mais variados sistemas de comunicação adaptados às diversas finalidades. As linguagens interpessoais servem ao homem como formas de estruturar seu mundo interior, pensar e conhecer, ou seja, a comunicação serve-lhe para pensar e comunicar pensamentos ou emoções.
Para haver comunicação é imprescindível a aquisição de uma linguagem, de um sistema de símbolos seja ele uma língua, um dialeto falado ou escrito, gestos, batidas, cores, uma inscrição em pedra, sinais luminosos ou sinais sonoros como os do código Morse, ou uma série de pulsos binários em um computador. Pode-se dizer que o mais importante sistema de signos e o mais complexo das linguagens é a fala humana. Bem Johnson (apud Cherry, 1974, p.129) diz que a “linguagem é o único privilégio de que o homem dispõe para exprimir a superioridade da sua inteligência sobre as demais criaturas”.
Superior ou não, o fato é que a linguagem, conhecimento e comunicação constituem fatos historicamente incompletos se não forem comunicáveis o que somente se consegue por meio da linguagem. Andrade e Medeiros (1997, p.16) citam que para muitos, a origem da linguagem se confunde com a origem das línguas. E que a linguagem apareceu e se desenvolveu para servir à comunicação. O que venha a ser comunicação todos compreendem mas e quanto as linguagens? O que são linguagens? Quais as suas características?... As linguagens animais são habilidades inatas e instintivas, a linguagem humana é habilidade aprendida. Interessante saber que as linguagens foram uma lenta invenção coletiva que se foi aprimorando com o decorrer dos séculos. É fruto da aprendizagem social ou de um grupo, espelho da cultura de uma comunidade.
Como reforço do que já foi dito anteriormente, sabe-se que os animais se comunicam entre si e que as linguagens utilizadas para a comunicação entre animais da mesma espécie são as linguagens não verbais. Como assim, linguagem não verbal? O verbo não é a alma da comunicação humana? O homem, animal racional, é o único que além da linguagem verbal, articulada, dispõe também de vários sistemas de linguagens não verbais. Já foi dito anteriormente que todos os seres vivos se comunicam, mas a comunicação vai além. Em tudo há uma mensagem. O homem, por exemplo, é um ser que se destaca pelo fato de falar e escrever o que pensa que culmina em troca de informação, mas, suas idéias também são passadas quando este faz uso das linguagens não-verbais que como não poderia ser diferente, são tão diversas como são os indivíduos da raça humana. Hoje em dia, a comunicação pela imagem ou comunicação icônica é uma realidade inconteste. Ao se pensar em comunicação formal pela imagem pode-se pensar em: sinais de trânsito, os cartazes indicativos das áreas de turismo e lazer, dos aeroportos e estações rodo e ferroviários; as placas de proibição e outros. Quando se questiona quais exemplos de comunicação sonora formal podem ser obtidos como resposta: código Morse, tambores falantes de certas tribos africanas (Congo), apitos dos guardas de trânsito, sirenes de ambulância, bombeiros e fábricas. Quando se refere à comunicação gestual podem ser mencionadas a Libra (linguagem dos surdos-mudos); a mímica formal e a informal.
A comunicação está em todo o lugar. Invenções fantásticas como: telefone, o telégrafo, o rádio, a TV, a imprensa, a comunicação a cabo e a via satélite facilitam a vida de todos, mas estão quase se tornando obsoletas visto a velocidade com que os animais racionais criam e recriam. Quando se pensa que acabou, pode-se ir mais longe no tocante ao tema. Além de todas essas formas já conhecidas e citadas anteriormente existe o estudo de outras possibilidades de comunicação, a virtual, que seriam por meio de gestos, da postura, do andar, do falar e do vestir. O homem calado e parado já está se comunicando. Essa comunicação carrega uma carga de significado e sentido muito grande.
Ao falar em gesto lembra-se da fonte primária da linguagem uma vez que segundo estudos sobre a pré-história, a comunicação gestual humana veio antes das palavras. Algumas obras, entre elas “O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não verbal” ( WEIL, Pierre e TOMPAKOV, Rolland -1986) e Dicionários de gestos” (GELABERT J. e GIFRE Martinell, 1990 apud ANDRADE e MEDEIROS, 1997, p.17) relatam que os gestos e posturas adotadas pelos falantes nas várias situações de comunicação traduzem um significado. Esse tipo de linguagens não-verbais não possui significados universais já que variam de cultura para cultura, mas nem por isso deixa de ter grande importância ou seja, contém um significado simbólico que está intimamente ligado a uma determinada cultura. Sem perder de vista que todo comportamento humano possui uma mensagem, a forma como as pessoas se vestem; o local escolhido para ficarem em eventos públicos emitem um significado. Há mensagem sendo emitida e recebida o tempo todo e a todo o momento. Importante se faz a reflexão sobre a questão de que o ser humano, em uma conversação, faz uso de várias linguagens diferentes. A raça humana mescla, muitas vezes, linguagem não verbal (às vezes mais de uma ao mesmo tempo) com a verbal. Sabe-se que o gesto, a expressão falam muito, mas, na linguagem verbal também há muita mensagem subliminar ou indireta. O fato de alguém falar de modo claro, correto, simpático, confuso, muito alto ou muito baixo também expressa uma opinião ou uma forma de pensar. Apesar de, muitas vezes, a linguagem não-verbal ser mais eloqüente do que a verbal, esta última é o meio pelo qual a expressão de sentimentos, idéias, desejos e pensamentos se concretizam. Quando se verbaliza um pensamento, a idéia contida nele adquire uma força muito maior e até modificadora do meio.
Toda comunicação se dá por meio de uma linguagem seja verbal ou não verbal. Uma vez que já foi explanado sobre a linguagem não-verbal, é imprescindível iniciar um levantamento sério sobre a linguagem verbal, própria do ser humano e que é o marco diferenciador entre a condição de homem e a de animal e à qual está associada ao pensar humano.
Quais as características da linguagem verbal? A linguagem verbal apresenta um aspecto exterior que é a modalidade oral e a escrita que estão fortemente ligados a outro interior conhecido como pensamento. Essa linguagem faz uso dos órgãos do aparelho fonador para produzir sons que associados e seqüenciados expressam idéias. O pensamento e a linguagem verbal estão tão ligados que Chauchard (1966:10 apud ANDRADE E MEDEIROS,1997, p.21) afirma que o homem só é sapiens porque é loquens (só é sábio porque tem fala). Como se vê a linguagem verbal está intimamente ligada a fala, mas, o que vem a ser isso? Realmente não se pode falar de linguagem verbal sem definir ou entender o que viria a ser a língua, a fala e o discurso na linguagem humana.
O estudo desses temas faz parte da ciência da linguagem há muito tempo. Saussure já pensava nisso. Em “Curso da Lingüística Geral”, (1977) encontra-se a diferença entre língua e fala (langue e parole) também conhecida como língua com a finalidade de entender o processo comunicativo. Para Saussure, a língua é um conjunto de potencialidades dos atos da fala. É um ato de concretização da língua.
Andrade e Henriques (1996 apud ANDRADE e MEDEIROS, 1997, p.21) afirmam que a língua é um código o qual permite a comunicação, um sistema de signos e combinações, enquanto a linguagem é uma faculdade que permite ao homem exprimir estados mentais por meios de um sistema de sons vocais chamados língua. Há diferença entre linguagem, língua, fala e discurso. O que os grandes estudiosos da área da linguagem falam a respeito disso?
Lyons (1981 p. 1) ensina que diversas línguas européias têm duas traduções para o vocábulo language. Essa diferença está relacionada, até certo ponto com a diferença entre os dois sentidos da palavra language. Em francês, a palavra langage refere-se à linguagem em geral e a palavra langue refere-se às diferentes línguas. No inglês dizer a expressão: “he possesses language” significa tanto que ele possui um língua quanto que ele é dotado de linguagem. Lyons (1981, p. 1) segue afirmando que filósofos, psicólogos e lingüistas consideram que é a posse da linguagem que diferencia o homem dos outros animais. Para Lyons (1981,p.2), a língua falada é mais básica do que a língua escrita. A língua é independente do meio em que os sinais lingüísticos se realizam. Para ele ( LYONS, 1981,p2) não há nenhuma sociedade humana que tenha nascido sem a capacidade da fala e que apesar de as línguas conhecidas em quase todo o mundo, possam ser falada ou escrita a grande maioria das sociedade, até pouco tempo, era constituída, na quase totalidade, por indivíduos analfabetos.
Sapir (1929:8 apud LYONS, 1981, P. 3) diz que “A linguagem é um método puramente humano e não instintivo de se comunicarem idéias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos”. Que a fala não é uma atividade simples de ser executada por um ou mais órgãos biologicamente a ela destinados. É uma trama extremamente complexa e ondeante de afastamentos no cérebro, no sistema nervoso, e nos órgãos de articulação e audição – em direção ao fim colimado, que é a comunicação de idéias.”.
Hall (1968:158 apud LYONS,1981, p.4) afirma que a linguagem é “a instituição pela qual os humanos se comunicam e interagem uns com os outros por meio de símbolos arbitrários orais-auditivos habitualmente utilizados” Terra (2003 p.12,13) define que a linguagem verbal é aquela cujos sinais utilizados para os atos de comunicação são as palavras. Continua dizendo que a palavra verbal vem do verbale que por sua vez provém de verbu e que significa palavra. Com certeza fundamentando-se em Saussure (1972, p.22) comenta ele (TERRA, 2003, p.12-13) que a linguagem verbal se concretiza por meio da fala que é um ato individual de vontade e inteligência.
Já que linguagem verbal faz uso das palavras para realizar um ato de fala e palavras podem ser faladas e escritas, nesse momento o homem começa a utilizar códigos de expressão muito mais complexos uma vez que com a escrita o homem se comunica, ratifica uma idéia como também altera o curso de sua história. Na escrita também entra toda a carga ideológica, social, cultural, emocional.
Não se pode confundir língua oral com escrita. São dois sistemas distintos. É uma contradição pensar que quanto mais a escrita tenta representar o real da oralidade mais ela se distancia desse oral assumindo uma forma menos flexível. É justamente do caráter individual da fala, da oralidade, que advém a diversidade da língua e dessa diversidade, o distanciamento entre a oralidade e a escrita.
Para Lyons (1981, p. 10) “a língua falada é usada em uma ampla gama de situações, servindo a escrita como substituta da fala apenas nas ocasiões em que a comunicação vocal-auditiva é impossível, inafiançável ou ineficiente” . “Foi a invenção do telefone e do gravador que possibilitou o emprego da língua falada em situações onde no passado seria usada a língua escrita (LYONS, 1981, P. 10).
Terra (2003 p.13), revela que a escrita representa um estágio posterior de uma língua, tanto que muitas pessoas utilizam a língua sem saber utilizar a escrita. Elas ocorrem em momentos diferentes e com propósitos diferentes. Continua o autor (TERRA, 2003, p.13) afirmando a existência de muitas línguas ágrafas no mundo. Ele estima que no mundo todo existem cerca de 3 mil línguas das quais apenas 110 possuem escrita.
Por meio dessa informação percebe-se que a linguagem falada é muito mais largamente utilizada que a escrita, mas é na linguagem verbal escrita que as teorias gramaticais tradicionais se baseiam tendo como base o fato de possuir um aspecto mais permanente que a oral.
Ao se falar em língua verbal escrita de um povo, nas escolas, por exemplo, logo se imagina a gramática ou o código escrito dessa língua. De fato o código da língua verbal escrita é a gramática. Muitos não sabem direito o que vem a ser uma gramática. Alguns confundem a gramática tradicional (prescritiva) com a gramática de uma língua que trata dos fatos internos da língua. Para que sejam sanadas algumas dúvidas é bom recorrer a alguns dos significados existentes no dicionário. Gramática vem do grego grammatiké (subentende-se techne) que significa arte da gramática. Do latim grammatica, é o estudo dos fatos da linguagem falada e escrita e das leis naturais que a regulam.
Terra (2003, p.56) questiona essa questão de leis naturais que regulam essa linguagem. Para ele, a norma gramatical não é intrínseca à língua, portanto não é natural. A norma é ditada de fora para dentro visto que é o uso que se quer impor aos demais. Imposta ou não, a oralidade e a escrita são mesmo modalidades distintas da linguagem apesar de confundidas em certos momentos e interligadas em outros. O que alguns teóricos pensam sobre essas modalidades da linguagem?
Para o cientista da Linguagem Sylvain Auroux (1998, p.69), a existência da escrita transforma profundamente o estatuto da fala humana. Muitas coisas são ditas sem precisar da interferência da fala. O que está escrito é insensível ao silêncio. “A escrita que parece dever fixar a língua é precisamente o que a altera. Ela não só muda suas palavras e sim seu gênio. Ela substitui a expressão pela exatidão”(AUROUX, 1998, p.71). Ele prossegue com sua idéia ao dizer que a linguagem verbal escrita foi adquirida quando ocorreu a colocação em formas fixas. Somente a escrita impõe (qualquer que seja, aliás, o tipo de representação adotado) um recorte sistemático e tornado consciente de toda mensagem em unidades gráficas discretas.
A mensagem oral pode até portar marcas da relação (simbólica e social) entre o locutor e o interlocutor, mas o escrito é muito mais universalizante. Importante observar que as sociedades “grafematizadas” admitem mais facilmente as variações orais do que as variações escritas.
E quanto à memória? Quanto à memória, as sociedades orais são diferentes das sociedades escritas. Nas sociedades orais, a reconstituição das mensagens lingüísticas se dá de maneira menos eficiente. Auroux (1998, p.70) acredita que o escrito instaura-se com mais fidelidade à letra. A instituição literária, ao contrário, considera necessário que exista um texto estabelecido definitivamente.
A não existência de um locutor, ou seja, o não compartilhar de uma situação de referência, obriga a serem explicitados parâmetros da enunciação deixados implícitos no oral. No escrito, o leitor não pode interromper a mensagem e se instaurar como locutor apesar de ter todo o tempo de retornar sobre a mensagem, de interrompê-la ou modificar-lhe a recepção, conseguindo assim, perceber melhor sua estratégia, as articulações e as fraquezas. Essa possibilidade na escrita, segundo Auroux (1998, p.71), é pouco possível com o interlocutor ante o oral.
O oral, apesar de lançar mão de todo o leque de possibilidades não verbais, para ser melhor compreendido, deve ser frequentemente redundante enquanto o escrito permite uma maior densidade da informação. A própria recepção da mensagem é diferente a cada momento de sua emissão. Auroux (1998, p.73) menciona que a grafematização está em crescimento constante. A invenção da escrita consistiu em integrar a linguagem humana ao universo dos signos gráficos. Chega a dizer que no desenvolvimento intelectual da humanidade seu aparecimento é tão importante quanto o surgimento da linguagem articulada.
A linguagem é a forma propriamente humana da comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política e do pensamento. Essa linguagem se concretiza por inúmeros meios que são aprimorados e reinventados a todo o momento. Apesar da grande invasão das imagens no mundo da comunicação, dos símbolos e ícones, o ser humano faz parte da civilização da escrita. Percorre todos os caminhos da linguagem, faz uso daqueles mais adequados, absorve suas experiências e as aplica na língua escrita. Como diz Cotrim (1999 p. 21) “No homem ocorre a síntese que integra características hereditárias e adquiridas, aspectos individuais e sociais, elementos do estado de natureza e de cultura. Por isso o homem é um ser contraditório, ambíguo, instável e dinâmico. Um produto da natureza e da cultura e ao mesmo tempo um transformador da natureza e um produtor cultural. Criatura e criador do mundo em que vive”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário