terça-feira, setembro 25, 2007

CURRICULUM LATTES

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4212485T9

"PRECONCEITO LINGÜÍSTICO". A Educação produzindo respeito e cidadania

TEMA

Estudo da unidade e variedades lingüísticas da Língua Portuguesa e seus reflexos dentro e fora de sala de aula
*
APRESENTAÇÃO
Falar de identidades lingüísticas e culturais num país como o nosso não é tarefa fácil. É indiscutível afirmar, no entanto, que a nossa língua é, certamente, um dos pilares em que assenta a nossa identidade como povo.
Todavia, mesmo para um não-especialista, é evidente a variação que a língua revela ao ser adotada pelos diferentes estratos sociais, regionais, etários ou profissionais. Todos nós, enquanto falantes, somos sensíveis à variação que realizamos, por exemplo, ao mudar de interlocutor, de assunto, ou de situação de comunicação.
Numa época em que a escola deixou de ser exclusiva de uma elite minoritária e em que o ensino se democratizou, fácil é perceber a grande diversidade de registros e de variedades lingüísticas que os alunos trazem para a sala de aula. Como resultado, a escola tornou-se local permanente do preconceito lingüístico.
Da mesma forma que alguns preconceitos (de raça, de gênero, de sexo) passam desapercebidos pela extrema regularidade com que são praticados, o preconceito lingüístico também resiste ao combate. Deve-se reconhecer, entretanto, a efetividade dos movimentos negro, feminista e de homossexuais no combate ao preconceito. Mas a verdade é que poucas pessoas percebem que estão sendo perigosamente preconceituosas quando reafirmam que a língua falada aqui ou acolá é errada ou que o brasileiro não sabe português, por exemplo.
Sendo assim, é preciso fazer com que os educandos respeitem as diferentes variedades lingüísticas do Português, aspecto bastante peculiar da nossa língua, e cuja presença faz-se evidente em todo o território nacional.
*
JUSTIFICATIVA
Existe hoje dentro da escola um grande preconceito lingüístico por parte de alunos e professores para com aqueles que utilizam outras variedades lingüísticas que não a padrão. Esse preconceito leva à discriminação, gerando problemas de interação entre os alunos e entre alunos e professores, fazendo com que a sala de aula venha a tornar-se local de exclusão social.
*
OBJETIVOS
Objetivo Geral
Acabar com o mito da unidade lingüística.

Objetivos Específicos
- Conceituar e caracterizar as variedades lingüísticas;
- Discutir seus reflexos na sociedade brasileira;
- Conscientizar os educandos a respeito da existência do preconceito lingüístico dentro e fora da sala de aula;Despertar no educando a consciência crítica a respeito da necessidade de combater o preconceito lingüítico.
*
METODOLOGIA

A metodologia a ser aplicada, bem como os recursos necessários para a realização do projeto e a elaboração do cronograma a ser concluído, diferenciam-se conforme o estabelecimento de ensino onde o projeto será implementado. Desta forma, trataremos aqui tais vertentes sempre partindo de duas perspectivas: escolas públicas e escolas particulares.

Escolas Públicas

Numa primeira etapa, os professores de História e Geografia da própria instituição serão convidados para trabalhar as variedades lingüísticas regionais, com o auxílio de textos cuja linguagem seja referente a uma região específica. Esses professores irão explicar o processo de formação de cada região, ou seja, suas histórias e suas respectivas influências.

O professor de Língua Portuguesa, responsável pela aplicação do projeto, trabalhará com gêneros variados, como música, poesia, charge, história em quadrinhos e também com filmes em que fique claro para os alunos o porque da fala de cada região. A partir de tais gêneros, o professor levantará algumas questões a respeito das variedades lingüísticas, para gerar debates entre os alunos.

Nessa etapa do projeto, além dos alunos, serão convidados os profissionais da escola, juntamente com a comunidade, uma vez que o preconceito lingüístico é um problema que compromete seriamente o rendimento escolar, podendo até mesmo causar trauma nos alunos que se sentirem excluídos, levando à reprovação e à evasão escolar. O profissional de Psicologia é indispensável nesse momento, pois será ele a expor as conseqüências emocionais causadas pelo preconceito, enfatizando como esse problema pode comprometer a auto-estima do aluno.

Posteriormente, os alunos realizarão uma pesquisa de campo elaborada em conjunto pelo psicólogo e pelo professor de Língua Portuguesa responsável pelo projeto. Nesse questionário serão levantadas perguntas a respeito do preconceito lingüístico e suas conseqüências. Após a realização da pesquisa, a mesma será debatida em sala de aula, sendo, ao término do debate, solicitada aos alunos a elaboração de um texto sobre tudo o que foi discutido a respeito de preconceito lingüístico ao longo de todo o semestre.

Ao final, como encerramento do projeto, os alunos serão convidados a participar de um concurso de rap, cuja letra retratasse a questão do preconceito lingüístico.

Escolas Particulares

Num primeiro momento, o professor de língua Portuguesa leva para a sala de aula textos de livros, recortes de jornais e revistas, documentários, clips musicais, filmes (ou partes de filmes), enfim uma infinidade de gêneros que lhe permita trabalhar com os alunos, no intuito de que haja debates em sala de aula a respeito de variedades e preconceito lingüísticos. Ao final dessas aulas, os alunos deverão redigir uma ata, que deverá ser entregue na aula seguinte, descrevendo tudo o que foi abordado em classe. O objetivo de se produzir a ata é levar o aluno a fixar, refletir e organizar seus pensamentos em relação ao objeto de estudo.

Assim como o professor, o aluno, num segundo momento, poderá trazer para a sala de aula, textos, recortes de jornais e revistas, reportagens, ou qualquer outro material selecionado por eles próprios, que aborde as variedades e o preconceito lingüísticos.

Após esta etapa, uma série de palestras será realizada, preferencialmente no auditório da escola, pois seria de fundamental importância que toda a comunidade escolar e familiares de alunos se engajassem no projeto. Após as palestras, os alunos terão de produzir um relatório ou um resumo a respeito dos temas abordados pelos palestrantes, para ser entregue na semana seguinte. Para melhor entendimento, segue abaixo um organograma das palestras a serem dadas.
PALESTRAS - TEMAS - PALESTRANTES
1ª palestra
Homem: um ser cultural, social e comunicativo
Antropólogo
*
2ª palestra
Brasil: um país de contrastes
Geógrafo humano
*
3ª palestra
Brasil: um país multilingüístico
Sociólogo
*
4ª palestra
Preconceito lingüístico: desrespeito, violência e agressão
Psicólogo
*

Numa fase posterior à realização das palestras, os alunos irão produzir um texto. No intuito de estimulá-los, o professor de Língua Português poderá sugerir diversos gêneros de texto, tais como poesia, conto, narrativa, descrição, quadrinhos, convite oficial, carta formal ou informal, propaganda, e tantos outros. Caberá ao aluno usar a criatividade para realizar um texto que seja interessante ou bem humorado. O objetivo desse trabalho é fazer com que o aluno domine termos lingüísticos aplicando-os para diversos fins e também tome conhecimento das várias estruturas de texto existentes. Poderá ser sugerido aos alunos a elaboração de textos que reflitam o falar de certa região, mas com cuidado de esclarecer que tais textos devem valorizar o falar e não torná-lo motivo de chacotas, tendo visto que o objetivo principal do projeto é combater o preconceito lingüístico. Para dar direcionamento aos alunos, os textos serão elaborados após cada palestra e um último após o júri simulado a ser produzido inteiramente pelos alunos. Os temas serão selecionados com antecedência pelo professor de Língua Portuguesa como demonstrado na tabela a seguir.

PALESTRAS - ABORDAGEM - TEMA DO TEXTO A SER PRODUZIDO
*
1ª palestra
Linguagem
Aspectos histórico-culturais de diversas culturas
*
2ª palestra
Língua
Aspectos geográficos e lingüísticos
*
3ª palestra
Fala
Aspectos sócio-econômicos, políticos e situacionais
*
4ª palestra
Fala
Preconceito lingüístico
Júri
Fala
Preconceito lingüístico: juízo de valor
*
É sempre necessário enfatizar aos alunos que os textos devem ser produzidos de maneira que estejam relacionados às questões de variações e preconceito lingüísticos, pois muitas vezes, ao mencionar que aspectos econômicos e políticos, por exemplo, devem ser discutidos, os adolescentes (público-alvo do projeto) tendem a desviar a questão para um enfoque ideológico.
*
RECURSOS

Recursos Humanos

Nas escolas públicas, os recursos humanos que serão empregados ficam restritos aos professores de Língua Portuguesa, História, Geografia e Psicologia. Outros profissionais como o professor de Sociologia, pedagogos e orientadores educacionais também podem fazer parte do projeto.

Em escolas particulares, além do professor de Língua Portuguesa e outros professores que, por ventura, queiram participar do projeto, o mesmo contará com a presença dos profissionais palestrantes.

Recursos Materiais e Financeiros
Tanto nas escolas particulares como nas públicas, haverá a necessidade de fotocópia ao se trabalhar com os textos e locação dos filmes previstos no programa. Nas escolas particulares, a contratação dos palestrantes demandará recursos financeiros extras
*
CRONOGRAMA

Escola Pública
*
1º mês
Aula expositiva
Palestra
Palestra
Filme
*
2º mês
Leitura e debate
Leitura e debate
Filme
Comentário do filme
*
3º mês
Palestra
Aula expositiva
Debate
Palestra e depoimentos
*
4º mês
Aula expositiva
Aula expositiva
Produção de texto
Concurso de rap

Escola Particular

1ª semana
2ª semana
3ª semana
4ª semana
*
1º mês
Leitura e debate de textos
Leitura e debate de textos
Palestra com o antropólogo
Produção de texto
*
2º mês
Leitura e debate de textos
Leitura e debate de textos
Palestra com o geógrafo humano
Produção de texto
*
3º mês
Leitura e debate de textos
Leitura e debate de textos
Palestra com o sociólogo
Produção de texto
*
4º mês
Leitura e debate de textos
Leitura e debate de textos
Palestra com o psicólogo
Produção de texto
*
5º mês
Leitura e debate de textos
Leitura e debate de textos
Júri simulado
Produção de texto
*
REFERÊNCIAS BIPLIOGRÁFICAS


BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália. São Paulo: Contexto, 1997.

______________. O Preconceito Lingüístico.São Paulo: Loyola, 1999.

GNERE, Maurício. Linguagem, Escrita e Poder. São Paulo: M. Fontes, 1994.

INFANTE, Ulisses. Curso de Gramática Aplicada aos Textos. São Paulo: Scipione, 2001.

LEAL, Maria Christina Diniz. Consciência C´ritica da Linguagem no Ensino de Português.
EAPE/UNB, 1997.

MONOGRAFIA

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA - UNICEUB
Faculdade de Ciências da Educação – FACE
Coordenação de Letras



Valéria Moutinho





MARCAS DA ORALIDADE NA ESCRITA ADOLESCENTE




Brasília/DF
2004

AGRADECIMENTOS


Agradeço, primeiramente a Deus pelo sol que ilumina nossos dias ofertando-nos claridade para guiarmos nossos passos; pelas estrelas que enfeitam as nossas noites e nos convida a reflexão e por todas as oportunidades de crescimento, amadurecimento e engrandecimento no bem. Agradeço aos meus pais pela vida; pela segurança dos primeiros passos; pelo direcionamento na conduta a seguir e o abraço amigo de toda hora. Agradeço ao meu marido pelas lágrimas secadas com carinho; pelo ombro nas horas difíceis, pelo apoio de sempre; pelo amor e companheirismo na jornada. Agradeço aos jovens, seus alunos, que muito gentilmente forneceram-me suas produções escritas a fim de eu estudá-las e analisá-las. Agradeço à instituição e aos professores de Letras do UniCEUB que caminharam ao nosso lado dando-nos o suporte teórico e confiável no decorrer do curso. Agradeço, especialmente ao professor Antônio Batista Pereira, paciente e dedicado orientador, pela atenção, amizade e respeito.

A Vocês,
Muito Obrigada.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS


Não se pode falar de escrita como manutenção do poder sem se entender o que venha a ser a oralidade e a escrita e qual a sua relação como o ser humano. O homem é um ser social consequentemente comunicante. A raça humana surgiu há 35 mil anos mas, estudiosos especializados mostraram que a partir desse período, chamado Paleolítico Superior começaram a surgir indícios da existência de pintura e de gravação em abrigos rochosos e cavernas o que foi considerado pelos antropólogos como o surgimento de uma raça visto que essas marcas culturais co-existiram, em várias cavernas, em vários lugares do planeta ao mesmo tempo histórico. Para alguns historiadores, como Aquino, Franco e Lopes (1980, p.4), o surgimento do indivíduo está relacionado com a condição do fazer humano (idéias, arte, cultura). Para eles, o homem é muito mais cultural do que biológico. Uma vez considerado como raça, eis que surge aquele que começa a se comunicar com o mundo de maneira mais expressiva. Essa melhor comunicação se deu, além do cérebro grande, também pelo fato de o homem ser o único mamífero a ter a laringe mais abaixo na garganta permitindo a produção de uma maior gama de sons. Sabendo que as palavras são senhas para o mundo humano, a linguagem é o principal instrumento na formação do mundo cultural humano e hoje temos um homem plenamente “consciente” e comunicativo.
A comunicação oral não surgiu apenas da capacidade orgânica e de um cérebro competente, o homem é um ser que está inserido em uma sociedade determinada e específica e tem a necessidade de mostrar, trabalhar e representar sua realidade. Essa característica criou um ambiente favorável para a construção e sedimentação de uma maior liberdade ideológica de expressão. A escrita literária e as demais maneiras de arte são na verdade, as conseqüências naturais do pensar e refletir da nossa espécie.
É fato que a arte, a pintura, a escultura, a música, a escrita simbólica, sempre fizeram parte das culturas, algumas vezes com maior expressão, outras vezes com menor expressão. Impossível negar, também, que desde o surgimento da escrita alfabética, pelo menos na cultura ocidental, a expressão por meio da grafia assumiu uma força muito grande de “autenticação” da verdade observada pelo ser pensante. Aprende-se na escola que a escrita foi o divisor de águas entre a pré-história e a história. Ao parar para perceber mais atentamente, chama a atenção que até a postura no ato de escrever convoca o homem a assumir uma “certa” posição reflexiva. Na obra intitulada História das Sociedades (AQUINO, FRANCO E LOPES, 1980, p.3), são encontrados comentários que corroboram com a idéia a cima. Os autores dizem que o homem ao juntar palavras com sentido ”real” para o escritor, este sente brotar idéias que refletem e organizam sua maneira de conceber o “mundo”.
Pensamento, consciência e escrita parecem andar juntos. Aranha e Martins (1995, p.5) comentam que na Grécia, considerada o berço da civilização, surgiu primeiramente a filosofia para depois surgir a escrita. Pode-se pensar sem registrar graficamente em um papel suas idéias mas não se pode escrever sem elaborar um pensamento. Talvez venha daí a força da escrita.
Baseado nos estudos a respeito do tema fica claro que de todas as linguagens, a mais importante foi a gráfica pois permitiu à fala humana existir sem a presença de um som emissor.
“Entregamos nossos sentimento quando falamos e nossas idéias quando escrevemos: Escrevendo somos forçados a tomar todas as palavras na acepção comum; dizendo tudo como o escreveríamos, não fazemos mais do que ler falando”. (RUSSEAU apud ARANHA e MARTINS, 1995, p. 6 )

A verdade é que a escrita, seja ela qual for, sempre foi uma maneira de representar a memória coletiva, religiosa, mágica, científica, política, artística e cultural. Após a invenção do livro e da imprensa, que foram os marcos da história da humanidade e da invenção da escrita, surgiram novas formas de materialização da memória coletiva. É quase impossível não associar ao homem o ato de ler e escrever. Aprender a ler e escrever é tão comum quanto comer, andar, falar. Cagliali (1989, p.103) diz que a escrita tem como objetivo a leitura. A leitura tem como objetivo a fala. A fala é a expressão lingüística que se compõe de unidades (signos) caracterizados pela união de significante e significado; que a escrita tem como objetivo primeiro permitir a leitura. A escrita é uma interpretação da leitura que tem por significado traduzir os símbolos escritos da fala. Cagliali (1989, p.96-115) diz, ainda, que alguns tipos de escrita se preocupam com a expressão oral e outros simplesmente com a transmissão de significados específicos, que devem ser decifrados por quem é habilitado. O autor acredita que a escrita precisa ter um objetivo definido, que é fornecer subsídios para que alguém leia. A leitura está condicionada pela escrita, mesmo que a restrição seja somente semântica. Ela exprime um pensamento estruturado por outra pessoa que não é o leitor falante.
Buscando ainda em Cagliari (1989, p. 96-115) muitos sistemas de escrita desenvolveram-se através de desenhos mas a escrita, propriamente dita, começou a existir no momento em que o objetivo do ato de representar pictoricamente tinha como endereço a fala e como motivo fazer com que por meio da fala o leitor se informasse a respeito de alguma coisa. Para ele, varias são as funções da escrita. A função informativa é a primeira porém, não é a única e nem sempre a principal.
O mesmo autor (CAGLIARI,1989, p.106,108) esclarece que a história da escrita pode ser dividida em três momentos: a pictórica, a ideográfica e a alfabética. A fase pictórica se distingue pela escrita através de desenhos ou pictogramas. Ex. inscrições antigas, nos cantos Ojibwa da América do Norte, na escrita asteca e mais recentemente nas histórias em quadrinhos. A fase ideográfica se caracteriza pela escrita através de desenhos especiais chamados Ideogramas. Esses desenhos foram ao longo de sua evolução perdendo alguns dos traços mais representativos das figuras retratadas e tornaram-se uma simples convenção de escrita. As letras de nosso alfabeto vieram desse tipo de evolução. A letra “a” teve sua origem no desenho da cabeça de um boi (escrita egípcia). O “x” representava o peixe; o “o” era a figura de um olho, etc. As escritas ideográficas mais importantes são a egípcia, a mesopotâmica (suméria), as escritas da região do mar Egeu (cretense) e a chinesa. A fase alfabética se caracteriza pelo uso de letras. Apesar de terem se originado dos ideogramas, a escrita perdeu o valor ideográfico adquirindo a função fonográfica. Como exemplo disso pode ser citado o semítico, indiano e o greco-latino.
Os sistemas de escrita podem ser divididos em dois grupos: os sistemas de escrita baseados no significado (escrita ideográfica) e os sistemas baseados no significante (escrita fonográfica). A nossa sociedade ocidental possui essas duas formas bem distintas. No primeiro sistema vemos os sinais de trânsito, símbolos e ícones e no segundo sistema vemos a própria escrita.
O fato é que apesar da escrita ser reconhecidamente tão importante para filósofos, cientistas e estudiosos da língua, no meio do povo a realidade é outra. Cagliali (1989, p. 96-115) nos ensina que em todas as localidades do mundo, principalmente nos países mais subdesenvolvidos é perceptível uma grande diferença de valor em relação a aquisição da escrita. Nesses casos, a tarefa de alfabetizar se torna mais difícil pois, de um lado, se tem grupos sociais que encaram a escrita como uma simples garantia de sobrevivência na sociedade e, de outro lado, se tem os grupos sociais que acham que a escrita é muito necessária além de ser uma forma de expressão individual de arte e de passatempo. Dessa diferença de valor em relação a aquisição da língua brota a relação de dominância, o surgimento da hegemonia social e escrita.
Nos capítulos que se seguem, será abordada, de maneira mais direcionada e seqüenciada, a relação da escrita com a sociedade e a hegemonia além de observar como está se comportando a língua escrita no meio dos jovens. Como eles estão rompendo, de uma certa forma, com essa hegemonia ao incorporarem explicitamente traços da fala no sistema rígido chamado escrita.

A ESCRITA COMO FORMA DE MANUTENÇÃO DO PODER


Vários estudiosos perceberam que a linguagem está presente em todas as sociedades humanas mas a escrita está presente somente em algumas sociedades. Para Rousseau (apud AUROUX, 1998, P.67), a arte de escrever não resulta da de falar e sim de necessidades de uma outra natureza que nasce mais cedo ou mais tarde conforme circunstâncias totalmente independentes da duração dos povos e que poderiam nunca ter sobrevivido em nações muito antigas. Levi-Strauss (apud AUROUX, 1998, p. 67) interpertou essas necessidades e essas circunstâncias como o nascimento de novas formas de poder: “O único fenômeno que aparece sempre e em toda parte ligado ao aparecimento da escrita, não somente no Mediterrâneo oriental, mas na China proto-histórica e até nessas regiões da América onde esboços de escrita apareceram antes da conquista, é a constituição de sociedades hierarquizadas que se encontram compostas de senhores e de escravos, de sociedades que utilizam, uma parte de sua população para trabalhar em proveito da outra parte”. (LEVI -STRAUSS, 1961. pg. 32 apud AUROUX, 1998,P.67).
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Auroux (1998, p.70-73) menciona que é incontestável que o escrito só aparece e se mantém em sociedades fortemente hierarquizadas. Que a escrita apareceu primitivamente na esfera econômica, e que a escrita esteve inicialmente ligada à contagem e repartição dos bens; mas esclarece que nem sempre isso traduz a verdade, uma vez que existiram sociedades que não usavam a escrita como forma de contagem, que é o caso da sociedade asteca. Mas pode-se concluir que a língua escrita esteve e está fortemente ligada a todos os aspectos significativos da sociedade. Transita pelo mítico e cultural, passa pelo econômico e político, associa-se ao religioso, interage com o social e tudo sem perder a ligação e relação direta com o poder. Saber escrever é sinônimo de domínio em quase todo o mundo se não for nele todo. Ao observar com mais clareza esse conceito de domínio pela escrita também evoluiu ou se sutilizou com o passar da história. Abandonou o domínio físico (força bruta), adotou uma postura de domínio intelectual derivando para o tipo mais sutil de domínio porém mais significativo que é o ideológico (aquele visto na nossa sociedade).
Esse domínio não surgiu do nada. Teve uma história e lógica. Gnerre (1998, p.11-18) comenta que associar a uma determinada variedade lingüística o poder da escrita foi nos últimos séculos da Idade media uma operação que respondeu às exigências políticas e culturais. O autor (GNERRE, 1998, p.13) prossegue dizendo que no contexto da corrida para as conquistas coloniais e da concorrência entre Portugal e Espanha começou a ser elaborada para a língua portuguesa uma construção ideológica para elevá-la e ordená-la nos moldes gramaticais. Cita o autor (GNERRE,1998,p. 13) que Fernão de Oliveira, na introdução de sua gramática em 1536 já mencionara a expansão da Língua Portuguesa entre os povos das terras descobertas e conquistadas. Gnerre (1998, p. 14) lembra, ainda, que a língua é um instrumento de poder nas relações externas e também as relações internas. Que Nebrija (apud GNERRE, 1998, p. 14) teria dito que a língua sempre acompanhou a dominação e a seguiu de tal modo que juntas começaram, juntas cresceram, juntas floresceram e afinal sua queda foi comum.
Quanto à questão de a língua escrita ser um instrumento de poder, tanto externa como internamente, a edição de dezembro de 1966 da revista O Foco, publicada pela Associação das Universidades de Língua Portuguesa sob a direção da sociolingüística Maria Marta Pereira Scherre, traz um artigo que esclarece que toda língua tem uma história externa intimamente relacionada com a interna. Na história externa são estudados os fatos políticos, sociais e culturais que influenciariam ou tiveram conseqüências lingüísticas. Na história interna são estudadas as transformações fonéticas, morfológicas, sintáticas e semânticas pelas quais a língua passou bem como a constituição de seu vocabulário, seu substrato, os estrangeirismos, empréstimos e neologismos.
Para melhor entender a língua como forma de poder é preciso fazer um apanhado rápido ou um levantamento sucinto, com mira na história das civilizações, da relação intrínseca entre escrita e a situação de dominância. Poderiam ser levantadas todas as informações sobre o comportamento da escrita em todas as línguas e civilizações, mas não é necessário. Observando a história da língua latina, comparando-a com a história no Brasil, já se consegue uma noção mais ampla sobre o tema.
Segredo não é que o português, assim como as demais línguas românicas, descendeu do latim. A história dessa língua dita morta inicia-se com a fundação de Roma e está totalmente ligada à ascensão e à queda do Império Romano. Os latinos devem ter chegado na região de Láscio por volta do século IX ou VIII a.C quando fundaram Roma sua capital. Permaneceram algum tempo submetidos aos povos que lá estavam, os etruscos, porém, logo a característica bélica e conquistadora daquele povo se sobressaiu iniciando, dessa forma, sua história de conquista e domínio. Dominaram as populações pré-romanas (Sabinos, volscos, etruscos, e posteriormente o umbro e o osco). Conquistaram a Itália (272 a.C) e com isso continuaram a se expandir pelo sul, norte e nordeste da Península Itálica até chegar em Dácia (107 d.C). Mediante todas essas conquistas, em contato com outros povos, a cultura e a língua dos latinos foram evoluindo. O latim que antes era uma língua tosca e rude, falada por agricultores e pastores, foi se transformando, por meio das influências culturais, principalmente a grega, em uma língua aprimorada a ponto de produzir uma rica literatura.
Assim como na Língua Portuguesa, o latim era usado de formas diferentes. Havia o latim culto, falado e escrito por literatos e pessoas escolarizadas e o latim comum falado pelas comunidades comuns em situações informais. Também como o português brasileiro, o latim literário era escrito, rígido e sujeito às regras, estilizado e se conservou com poucas ou nenhuma alteração. Já o latim dito vulgar, era uma língua viva e como toda língua viva e falada, evoluiu no tempo e no espaço, transformando-se, lenta e progressivamente, nas línguas neo-latinas ou românicas modernas. A língua culta escrita agiu como inibidora das inovações excessivas, exageradas, da língua falada.
Diferente do acontecido com o povo brasileiro, os romanos, com todo o seu poder e destaque, não impuseram arbitrariamente sua língua aos vencidos que, frequentemente, conservaram suas terras, suas cidades, seu culto e sua administração local. A aceitação se deu de maneira voluntária o que representou a conseqüência da supremacia política, comercial e cultural do Império. Como isso se deu? Roma estabelecia metodicamente sua administração. A língua da administração, dos altos negócios, dos estabelecimentos de recreação e esporte, dos teatros e de toda a vida social era o latim. Quem quisesse se inserir precisaria, necessariamente, aprender a língua padrão. Além disso, o latim era a língua oficial ensinada nas várias escolas fundadas pelo Império especialmente na Gália e Espanha. Dessa forma o latim conseguiu manter uma certa unidade da língua. As igrejas também adotaram o latim para os sermões e como o povo sempre esteve submetido à égide do “ministro” ou “representante” de Deus na terra, o fato de ser a língua oficial da igreja deve ter promovido a associação, mesmo que inconsciente, do latim a Deus, ao poder, ao “certo”. Nesse sentido, como se manteve tanto tempo no domínio, a igreja foi responsável pela difusão dessa língua padrão dentre outras culturas.
Como uma língua tão popular e poderosa pôde se extinguir? Nas relações externas, interculturais, a língua padrão escrita, está juntamente no poder com o seu país e está fora dele também juntamente com seu país. Com a crise que assolou o império romano a partir do século III a unidade da língua abalou-se. Associada à crise econômico-social ocorreu a crise político-administrativa. Com a dissolução do Império e a queda do poder aristocrático houve o crescimento da liberdade do latim vulgar, popular, que se desenvolveu autonomamente em cada região gerando no século IX, o francês, o italiano e o provençal e no século XI ou XII surgiu o espanhol e o português ( tornou-se independente no século XIV e XV).
A partir do século XV, Portugal dá início à sua expansão e como se sabe, em 1500, chegou ao Brasil e disse que o tinham descoberto. Os portugueses esqueceram os habitantes nativos que aqui se encontravam. Mas como respeitar esses nativos se não eram “brancos”, não falavam português, não eram católicos e não tinham escrita? Mais uma vez a idéia de letrados subjugando iletrados; a cultura formalmente letrada subjugando a informal ou local e popular. Estabelece-se aqui o domínio social, cultural e ideológico. O fato é que no Brasil não aconteceu muito diferente do que aconteceu em Roma. A partir de 1532, o território brasileiro foi dividido em 15 capitanias. A princípio tentaram usar a força física dos índios mas eles eram arredios e em grande quantidade. Arrumaram outra mão de obra e deixaram os jesuítas brincarem de papais ao catequizarem os nativos. Os Jesuítas satisfaziam seu ego de missionário e ajudava os portugueses a manter o controle sobre eles. Voltando para a história, aqui se criou uma língua geral que objetivava a interação entre Índios e brancos. Essa língua era facilmente aprendida pelos brancos e pelos nativos de outras tribos além de coexistir com o português ensinado nas escolas. Esta também coexistia com as demais línguas indígenas (línguas travadas). Os brasileiros eram bilíngües. A partir da segunda metade do século XVIII, a língua geral entrou em declínio, o português foi-se impondo pois os brancos, certos de sua superioridade, procuravam difundir seus padrões de cultura, principalmente a língua. Podem ser citados como causas disso: a chegada de um número cada vez maior de imigrantes portugueses atraídos pelo ouro; a proibição do uso da língua geral e a obrigatoriedade do uso da língua portuguesa (oficial); expulsão dos jesuítas; etc.
Apesar de bilíngües e portanto, experimentarem uma certa liberdade de escolha quanto à língua, não pode ser esquecido que o português predominou durante a existência e coexistência da língua geral. A língua branca era usada nas escolas, na administração, nos contatos, transmissões e casamentos.
O domínio da cultura européia sobre a indígena se consolidou no final do século XVIII. De acordo com a história, de 1724 a 1758 surgiram as Academias; foi publicado a primeira edição do dicionário e começou a formar-se uma geração desejosa de se emancipar de Portugal. Esse desejo de liberdade não era no tocante a Língua mas no tocante ao espírito e ao sentimento literário. Um século depois da Independência oficial, o movimento literário do Modernismo em 1922 ressuscitou a questão da língua brasileira mais associada à oralidade da língua. Uma visão nacionalista. Foi a partir do Modernismo que o Brasil alcançou sua independência lingüística e cultural.
É fácil detectar que o percurso evolutivo da língua portuguesa em Portugal foi muito diverso daquele que ocorreu no Brasil. A língua portuguesa do Brasil é a mesma de Portugal tendo como diferença apenas a norma. O suficiente para serem praticamente duas línguas distintas. nas liva e falada, evoluiu no tempo e no espaço, transformando-se lenta e progressivamente alado pels comunidades comuns em si Partindo dessa idéia de norma, a língua brasileira não é apenas diferente da língua de Portugal, ela também tem diferenças importantes dentro de um mesmo espaço geográfico político. Dentro do nosso país, no tocante à escrita, há muitas diferenças lingüísticas o que se dá pelo fato de a língua oral e a escrita evoluírem em tempo e modo diferentes.
Mais uma vez associando a escrita e o poder, é sabido que a historia do Brasil é recheada de lutas de poder. Quanto á língua, essas lutas não são menos sérias. O assunto predileto nos estudos acadêmicos na atualidade é a questão do preconceito lingüístico. Afirmam que isso deve acabar e que o professor deve conscientizar os alunos para a existência das diferenças lingüísticas em decorrência da enormidade territorial associado às influências culturais estrangeiras. Isso é válido. Mas a consciência deve adquirir um tom mais profundo. O preconceito racial foi substituído como rótulo pelo preconceito social que foi substituído ou modificado pelo lingüístico que já está a caminho de uma diminuição mais significativa, porém, o problema é maior do que a dominação do escrito sobre o oral ou padrão sobre o não padrão. A dominação não é explicitamente social ou racial e sim sutilmente ideológico. As classes menos favorecidas já sabem ir às ruas brigar por mais humanidade e cidadania. Os discursos diretos e preconceituosos não funcionariam mais, o que os espantariam e os rebelariam. Por isso a hegemonia é mais velada, mais disfarçada.
A primeira questão a ser levantada é por que há o preconceito. Não seria lógico escrever como se fala? Onde nasce a diferença tão significativa entre o falado e o escrito? Por que o escrito é tão poderoso? Será que essa discussão não está empanando uma hegemonia ainda maior?
Não é difícil adquirir algumas respostas ou reflexões pelo menos quanto aos primeiros questionamentos. Como já foi dito anteriormente, a língua está em constante mutação e assim como aconteceu na língua latina que se modificou e se transformou em outras línguas, o português chegado da Europa e implantado no Brasil também se modificou se transformando na língua que conhecemos. Daqui a algumas décadas ou séculos, a língua brasileira conhecida não será a que estará em voga no momento. A língua está em constante modificação porque a sociedade também muda constantemente.
A verdade é que não se escreve como fala e que a língua escrita é mais conservadora que a falada. Com a finalidade de ilustrar ou exemplificar, Gnerre (1998, p.5-10) afirma que há a possibilidade de se perceberem fenômenos inovadores em expansão na fala que não alcançaram a escrita ou seja, ao escrever o falante nativo sente dificuldades em usar certas estruturas correntes na fala e que são inaceitáveis na escrita por exemplo: o livro em que mais gostei foi...(Fontes LE) e O livro que mais gostei foi...(fortes LO). Auroux (1998, p.68) esclarece que alguns fatores contribuem para o conservadorismo da língua escrita. Ela é realizada por meio de uma substância mais duradoura que o som e por isso tem uma dimensão de permanência favorecendo assim o exercício do controle social mais intenso sobre ela do que sobre a fala. Disso resulta a preservação de padrões mais conservadores de linguagem e conseqüente bloqueio à entrada de formas inovadoras. Um outro fator é que as atividades escritas estão na maioria das vezes, ligadas a contextos sociais marcados por formalidades. De acordo com a sociolingüística há forte ligação entre situações formais e o uso preferencial de formas lingüísticas mais conservadoras: o falante para satisfazer as expectativas sociais, procura evitar nesses contextos usar vernáculos.
É fato que as inovações da fala, já aceitas em muitas situações formais da fala, são criticadas na escrita. Por que isso? Auroux (1998, p.71) comenta que as mudanças normalmente se desencadeiam na fala informal de grupos socioeconômicos intermediários; avançam pela fala informal de grupos mais altos na estrutura sócio-econômicos chegam a situações formais da fala e só então começam a ocorrer na escrita. Muitos vernáculos falados pelos grupos sociais mais baixos (provocadores de mudanças) incomodam aos falantes pertencentes aos grupos sociais mais altos (não provocadores de mudanças). O grupo formalmente letrado taxa as expressões populares de erradas, incorretas, impróprias e feias. Mas, na verdade, essa atitude é motivada por juízos de valores que não têm nada a ver com a forma em si e sim com as peculiaridades das relações sociais visto que a classe social que promove mudanças tem baixo prestígio social e sua fala é marcada de forma negativa pelos grupos mais privilegiados social, cultural e economicamente.
Auroux (1998, p.74) conclui uma idéia dizendo que as mudanças lingüísticas estão envolvidas por um complexo jogo de valores sociais que podem bloquear, retardar ou acelerar a expansão de uma palavra para outra variedade da língua. É dever dos que são interessados na língua, ficar atentos ao fato de que a língua possui uma realidade heterogênea.
Quanto ao último questionamento, se não há um discurso que está empanando a realidade, é preciso sair do óbvio e partir para o não óbvio. Gnerre (1998, p. 20) alerta que o poder das palavras é enorme especialmente o poder de algumas. Que na variedade padrão são introduzidos conteúdos ideológicos, relativamente simples de manipular uma vez que as palavras e seus significados ficam na mão de poucos. Grupos de pessoas que detêm o conhecimento real do referente conceitual de determinadas palavras e acabam assegurando que as grandes massas, apesar de familiarizadas com as formas das palavras, fiquem na realidade, privadas do conteúdo associado. Assim fica fácil dominar.
O autor de Linguagem, escrita e poder (GNERRE, 1998, p. 20) coloca que a linguagem pode ser usada para impedir a comunicação de informações para muitas pessoas. Afirma que a linguagem usada e o quadro de referências dado como implícito constituem um verdadeiro filtro da comunicação de informações. Gnerre (1998, p.21) continua afirmando que essas informações só podem ser entendidas por ouvidos que já se iniciaram nos conteúdos a elas associados. O radio e a televisão, por exemplo, têm um alcance imenso mas as informações ficam restritas a grupos relativamente reduzidos. Percebe-se que na nossa sociedade a pessoa precisa ter um aparato de conhecimentos sócio-políticos a fim de que consigam compreender e com isso produzir e conhecer esses aparatos. Para que isso aconteça é preciso ao homem ter acesso e adquirir os códigos lingüísticos de nível alto.
Conclui Gnerre (1998, p.22) que em termos de competência lingüística nata ou letramento informal, o adulto alfabetizado não deverá ter maiores dificuldades em tornar-se um leitor de variedades da língua escrita pouco complexas como: histórias em quadrinhos, fotonovelas e alguma literatura nacional. Defende que o problema é, de um lado, de compreensão de mensagens e conteúdos e de outro lado, de produção de mensagem. Para o autor (GNERRE, 1998, p.23), a função central de todas as linguagens é social. Elas têm um real valor comunicativo mas excluem da comunicação as pessoas que estão fora do grupo que usa a linguagem especial ou formal.
Gnerre (1998, P.25,26) deixa explícito que a gramática normativa escrita é um “resto de épocas em que as organizações dos Estados eram explicitamente ou declaradamente autoritárias e centralizadas”. Prossegue o mesmo relatando que nas democracias, as pessoas que tomam as decisões para a coletividade se fundamentam e se embasam em legitimações fornecidas pelo saber de que dispõem. Mas quem deu esse poder? A escrita ou o conhecimento referendado pelas letras impressas?
Acontece que pessoas são discriminadas com base nas “capacidades lingüísticas medidas no metro da gramática normativa e da língua padrão” (GNERRE, 1998, p.22). A contradição é que o objetivo do governo com isso é “reduzir a distância entre os grupos sociais para uma sociedade de oportunidades para todos. Gnerre (1998, p.29)comenta que processos ditos democráticos e libertadores como: as campanhas de alfabetização, de aumento de oportunidades e dos recursos educacionais estão na verdade conjugados aos processos de padronização língua. Facilitam a dominação pois os grupos sociais que têm pouco contato com a variedade padrão da língua e que escrevem menos se tornam mais fáceis de serem controlados. A escrita é uma forma de poder. Ela, como padrão, seleciona os que estão no poder. Mas que poder? Não é somente pelo acesso ao código escrito que se chega a presidente. Briga-se com a escrita, acusam-na de ditadora e opressora mas ela pode se tornar uma grande aliada da classe que se diz oprimida. Os povos formalmente menos letrados necessitam transformar a escrita ou a educação formal em arma para modificarem sua realidade. A escrita formal não dá somente força de verdade aos documentos. Por meio dela se adquire todo um arcabouço teórico e de pensamento que se tornam, sim, arma de mudança social.

A ORALIDADE E A ESCRITA COMO MODALIDADES DISTINTAS DA LINGUAGEM

A oralidade e a escrita são modalidades importantes da linguagem humana. Elas são distintas e complementares entre si visto que cada qual possui características relevantes para a construção do pensar. Importante observar que a linguagem humana não se resume apenas nelas. Essas modalidades são alguns estágios pertencentes às diversas formas do comunicar humano denominadas linguagens. Daí ser imprescindível, antes de caracterizar e diferenciar a oralidade da escrita, primeiramente situar o ser humano no aspecto cultural; relatar e evidenciar as diversas modalidades de linguagens para depois chegar ao objetivo que está contido no título.
A cultura de um povo abrange muitos elementos. Dentre eles, o mais importante é a linguagem. Impossível pensar em sociedade humana sem aceitar a intercomunicação e interação. Essa comunicação não acontece aleatóriamente e sim por meio de uma sistemática. Cotrim (1999, p.17) afirma que a Linguagem é a capacidade que permite que os homens se comuniquem uns com os outros por meio de um código. Esse código não tem somente a finalidade de passar uma ordem ou um pedido. Segundo Edward Sapir (apud COTRIM 1999 p. 17), a Linguagem é um método puramente humano e não instintivo de serem comunicadas, idéias, emoções e desejos valendo-se de símbolos voluntariamente produzidos.
O filósofo alemão Martin Heidgger (apud COTRIM, 1999, p.17) menciona que a língua é o solo comum da cultura de um povo. Cotrim (1999) concorda ao dizer que a língua é um fato cultural e representa um dos mais fortes laços de união entre os membros de uma comunidade. Para Cotrim (1999, p. 17), o conhecimento individual de cada pessoa também se torna, por meio da linguagem, patrimônio social.
Os humanos são mais que seres biológicos produzidos pela natureza. Eles são seres culturais que modificam o estado de natureza. Chauí (1995, p.136-150) afirma que a linguagem articula percepções e memórias; percepções e imaginações oferecendo ao pensamento um fluxo temporal que conserva e interliga as idéias. Cotrim (1999 p.20) complementa sua idéia quando afirma que quanto mais alto estiver o animal na escala de desenvolvimento zoológico, mais independentes dos instintos e reflexos automáticos esse animal será. Adquirindo dessa forma um comportamento cada vez mais flexível, imprevisível, maleável às circunstâncias ambientais. Em resumo, dependendo do estágio evolutivo em que se situa o animal, mais traços de inteligência e capacidade de raciocínio serão encontrados. No mundo animal pode-se dizer que Chimpanzé e Gorila se encaixam perfeitamente nessas características. Mas, apesar das percepções das capacidades inquestionáveis existentes em alguns mamíferos, não se pode deixar de observar o abismo gigante ocorrentes entre os animais e seres humanos. O fundamento disso está na capacidade expressar o pensamento. Cotrim (1999 p.21) elucida mostrando que os humanos fazem parte da natureza uma vez que estão sujeitos às leis físicas e biológicas, porém, pelo desenvolvimento de seu psiquismo, estes podem observar a natureza, criar uma linguagem, analisar e julgar o mundo no qual estão inseridos.
Aristóteles (“A política” apud CHAUÍ, 1995 p. 136 ) diz que somente o homem é dotado de linguagem. Que os outros animais possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e com ela exprime o bom, o mal, o justo e o injusto. A linguagem humana é muito complexa e completa podendo criar além das línguas naturais como: português, inglês, espanhol, alemão, russo, japonês, uma enormidade de formas de emitir mensagens.
Não há surpresa no fato de a comunicação existir em todas as formas vivas da natureza e de que muitas dessas comunicações muito complexas e impressionantes, porém, devido a impossibilidade de tempo, não há como observar as linguagens utilizadas por todos os seres vivos sendo assim, essa pesquisa se limita à observação da linguagem humana nas mais diversas maneiras.
Andrade e Margarida (1997, p.16) comentam que a comunicação é uma palavra que tem sua origem no latim comunicare (por em comum). Sua finalidade é por em comum: idéias, sentimentos, pensamentos, desejos como também, formas de comportamentos, modos de vida, determinados por regras de caráter social.
Pode-se afirmar que o homem é um animal comunicativo uma vez que de todos os seres vivos, ele é o que dispõe dos mais variados sistemas de comunicação adaptados às diversas finalidades. As linguagens interpessoais servem ao homem como formas de estruturar seu mundo interior, pensar e conhecer, ou seja, a comunicação serve-lhe para pensar e comunicar pensamentos ou emoções.
Para haver comunicação é imprescindível a aquisição de uma linguagem, de um sistema de símbolos seja ele uma língua, um dialeto falado ou escrito, gestos, batidas, cores, uma inscrição em pedra, sinais luminosos ou sinais sonoros como os do código Morse, ou uma série de pulsos binários em um computador. Pode-se dizer que o mais importante sistema de signos e o mais complexo das linguagens é a fala humana. Bem Johnson (apud Cherry, 1974, p.129) diz que a “linguagem é o único privilégio de que o homem dispõe para exprimir a superioridade da sua inteligência sobre as demais criaturas”.
Superior ou não, o fato é que a linguagem, conhecimento e comunicação constituem fatos historicamente incompletos se não forem comunicáveis o que somente se consegue por meio da linguagem. Andrade e Medeiros (1997, p.16) citam que para muitos, a origem da linguagem se confunde com a origem das línguas. E que a linguagem apareceu e se desenvolveu para servir à comunicação. O que venha a ser comunicação todos compreendem mas e quanto as linguagens? O que são linguagens? Quais as suas características?... As linguagens animais são habilidades inatas e instintivas, a linguagem humana é habilidade aprendida. Interessante saber que as linguagens foram uma lenta invenção coletiva que se foi aprimorando com o decorrer dos séculos. É fruto da aprendizagem social ou de um grupo, espelho da cultura de uma comunidade.
Como reforço do que já foi dito anteriormente, sabe-se que os animais se comunicam entre si e que as linguagens utilizadas para a comunicação entre animais da mesma espécie são as linguagens não verbais. Como assim, linguagem não verbal? O verbo não é a alma da comunicação humana? O homem, animal racional, é o único que além da linguagem verbal, articulada, dispõe também de vários sistemas de linguagens não verbais. Já foi dito anteriormente que todos os seres vivos se comunicam, mas a comunicação vai além. Em tudo há uma mensagem. O homem, por exemplo, é um ser que se destaca pelo fato de falar e escrever o que pensa que culmina em troca de informação, mas, suas idéias também são passadas quando este faz uso das linguagens não-verbais que como não poderia ser diferente, são tão diversas como são os indivíduos da raça humana. Hoje em dia, a comunicação pela imagem ou comunicação icônica é uma realidade inconteste. Ao se pensar em comunicação formal pela imagem pode-se pensar em: sinais de trânsito, os cartazes indicativos das áreas de turismo e lazer, dos aeroportos e estações rodo e ferroviários; as placas de proibição e outros. Quando se questiona quais exemplos de comunicação sonora formal podem ser obtidos como resposta: código Morse, tambores falantes de certas tribos africanas (Congo), apitos dos guardas de trânsito, sirenes de ambulância, bombeiros e fábricas. Quando se refere à comunicação gestual podem ser mencionadas a Libra (linguagem dos surdos-mudos); a mímica formal e a informal.
A comunicação está em todo o lugar. Invenções fantásticas como: telefone, o telégrafo, o rádio, a TV, a imprensa, a comunicação a cabo e a via satélite facilitam a vida de todos, mas estão quase se tornando obsoletas visto a velocidade com que os animais racionais criam e recriam. Quando se pensa que acabou, pode-se ir mais longe no tocante ao tema. Além de todas essas formas já conhecidas e citadas anteriormente existe o estudo de outras possibilidades de comunicação, a virtual, que seriam por meio de gestos, da postura, do andar, do falar e do vestir. O homem calado e parado já está se comunicando. Essa comunicação carrega uma carga de significado e sentido muito grande.
Ao falar em gesto lembra-se da fonte primária da linguagem uma vez que segundo estudos sobre a pré-história, a comunicação gestual humana veio antes das palavras. Algumas obras, entre elas “O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não verbal” ( WEIL, Pierre e TOMPAKOV, Rolland -1986) e Dicionários de gestos” (GELABERT J. e GIFRE Martinell, 1990 apud ANDRADE e MEDEIROS, 1997, p.17) relatam que os gestos e posturas adotadas pelos falantes nas várias situações de comunicação traduzem um significado. Esse tipo de linguagens não-verbais não possui significados universais já que variam de cultura para cultura, mas nem por isso deixa de ter grande importância ou seja, contém um significado simbólico que está intimamente ligado a uma determinada cultura. Sem perder de vista que todo comportamento humano possui uma mensagem, a forma como as pessoas se vestem; o local escolhido para ficarem em eventos públicos emitem um significado. Há mensagem sendo emitida e recebida o tempo todo e a todo o momento. Importante se faz a reflexão sobre a questão de que o ser humano, em uma conversação, faz uso de várias linguagens diferentes. A raça humana mescla, muitas vezes, linguagem não verbal (às vezes mais de uma ao mesmo tempo) com a verbal. Sabe-se que o gesto, a expressão falam muito, mas, na linguagem verbal também há muita mensagem subliminar ou indireta. O fato de alguém falar de modo claro, correto, simpático, confuso, muito alto ou muito baixo também expressa uma opinião ou uma forma de pensar. Apesar de, muitas vezes, a linguagem não-verbal ser mais eloqüente do que a verbal, esta última é o meio pelo qual a expressão de sentimentos, idéias, desejos e pensamentos se concretizam. Quando se verbaliza um pensamento, a idéia contida nele adquire uma força muito maior e até modificadora do meio.
Toda comunicação se dá por meio de uma linguagem seja verbal ou não verbal. Uma vez que já foi explanado sobre a linguagem não-verbal, é imprescindível iniciar um levantamento sério sobre a linguagem verbal, própria do ser humano e que é o marco diferenciador entre a condição de homem e a de animal e à qual está associada ao pensar humano.
Quais as características da linguagem verbal? A linguagem verbal apresenta um aspecto exterior que é a modalidade oral e a escrita que estão fortemente ligados a outro interior conhecido como pensamento. Essa linguagem faz uso dos órgãos do aparelho fonador para produzir sons que associados e seqüenciados expressam idéias. O pensamento e a linguagem verbal estão tão ligados que Chauchard (1966:10 apud ANDRADE E MEDEIROS,1997, p.21) afirma que o homem só é sapiens porque é loquens (só é sábio porque tem fala). Como se vê a linguagem verbal está intimamente ligada a fala, mas, o que vem a ser isso? Realmente não se pode falar de linguagem verbal sem definir ou entender o que viria a ser a língua, a fala e o discurso na linguagem humana.
O estudo desses temas faz parte da ciência da linguagem há muito tempo. Saussure já pensava nisso. Em “Curso da Lingüística Geral”, (1977) encontra-se a diferença entre língua e fala (langue e parole) também conhecida como língua com a finalidade de entender o processo comunicativo. Para Saussure, a língua é um conjunto de potencialidades dos atos da fala. É um ato de concretização da língua.
Andrade e Henriques (1996 apud ANDRADE e MEDEIROS, 1997, p.21) afirmam que a língua é um código o qual permite a comunicação, um sistema de signos e combinações, enquanto a linguagem é uma faculdade que permite ao homem exprimir estados mentais por meios de um sistema de sons vocais chamados língua. Há diferença entre linguagem, língua, fala e discurso. O que os grandes estudiosos da área da linguagem falam a respeito disso?
Lyons (1981 p. 1) ensina que diversas línguas européias têm duas traduções para o vocábulo language. Essa diferença está relacionada, até certo ponto com a diferença entre os dois sentidos da palavra language. Em francês, a palavra langage refere-se à linguagem em geral e a palavra langue refere-se às diferentes línguas. No inglês dizer a expressão: “he possesses language” significa tanto que ele possui um língua quanto que ele é dotado de linguagem. Lyons (1981, p. 1) segue afirmando que filósofos, psicólogos e lingüistas consideram que é a posse da linguagem que diferencia o homem dos outros animais. Para Lyons (1981,p.2), a língua falada é mais básica do que a língua escrita. A língua é independente do meio em que os sinais lingüísticos se realizam. Para ele ( LYONS, 1981,p2) não há nenhuma sociedade humana que tenha nascido sem a capacidade da fala e que apesar de as línguas conhecidas em quase todo o mundo, possam ser falada ou escrita a grande maioria das sociedade, até pouco tempo, era constituída, na quase totalidade, por indivíduos analfabetos.
Sapir (1929:8 apud LYONS, 1981, P. 3) diz que “A linguagem é um método puramente humano e não instintivo de se comunicarem idéias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos”. Que a fala não é uma atividade simples de ser executada por um ou mais órgãos biologicamente a ela destinados. É uma trama extremamente complexa e ondeante de afastamentos no cérebro, no sistema nervoso, e nos órgãos de articulação e audição – em direção ao fim colimado, que é a comunicação de idéias.”.
Hall (1968:158 apud LYONS,1981, p.4) afirma que a linguagem é “a instituição pela qual os humanos se comunicam e interagem uns com os outros por meio de símbolos arbitrários orais-auditivos habitualmente utilizados” Terra (2003 p.12,13) define que a linguagem verbal é aquela cujos sinais utilizados para os atos de comunicação são as palavras. Continua dizendo que a palavra verbal vem do verbale que por sua vez provém de verbu e que significa palavra. Com certeza fundamentando-se em Saussure (1972, p.22) comenta ele (TERRA, 2003, p.12-13) que a linguagem verbal se concretiza por meio da fala que é um ato individual de vontade e inteligência.
Já que linguagem verbal faz uso das palavras para realizar um ato de fala e palavras podem ser faladas e escritas, nesse momento o homem começa a utilizar códigos de expressão muito mais complexos uma vez que com a escrita o homem se comunica, ratifica uma idéia como também altera o curso de sua história. Na escrita também entra toda a carga ideológica, social, cultural, emocional.
Não se pode confundir língua oral com escrita. São dois sistemas distintos. É uma contradição pensar que quanto mais a escrita tenta representar o real da oralidade mais ela se distancia desse oral assumindo uma forma menos flexível. É justamente do caráter individual da fala, da oralidade, que advém a diversidade da língua e dessa diversidade, o distanciamento entre a oralidade e a escrita.
Para Lyons (1981, p. 10) “a língua falada é usada em uma ampla gama de situações, servindo a escrita como substituta da fala apenas nas ocasiões em que a comunicação vocal-auditiva é impossível, inafiançável ou ineficiente” . “Foi a invenção do telefone e do gravador que possibilitou o emprego da língua falada em situações onde no passado seria usada a língua escrita (LYONS, 1981, P. 10).
Terra (2003 p.13), revela que a escrita representa um estágio posterior de uma língua, tanto que muitas pessoas utilizam a língua sem saber utilizar a escrita. Elas ocorrem em momentos diferentes e com propósitos diferentes. Continua o autor (TERRA, 2003, p.13) afirmando a existência de muitas línguas ágrafas no mundo. Ele estima que no mundo todo existem cerca de 3 mil línguas das quais apenas 110 possuem escrita.
Por meio dessa informação percebe-se que a linguagem falada é muito mais largamente utilizada que a escrita, mas é na linguagem verbal escrita que as teorias gramaticais tradicionais se baseiam tendo como base o fato de possuir um aspecto mais permanente que a oral.
Ao se falar em língua verbal escrita de um povo, nas escolas, por exemplo, logo se imagina a gramática ou o código escrito dessa língua. De fato o código da língua verbal escrita é a gramática. Muitos não sabem direito o que vem a ser uma gramática. Alguns confundem a gramática tradicional (prescritiva) com a gramática de uma língua que trata dos fatos internos da língua. Para que sejam sanadas algumas dúvidas é bom recorrer a alguns dos significados existentes no dicionário. Gramática vem do grego grammatiké (subentende-se techne) que significa arte da gramática. Do latim grammatica, é o estudo dos fatos da linguagem falada e escrita e das leis naturais que a regulam.
Terra (2003, p.56) questiona essa questão de leis naturais que regulam essa linguagem. Para ele, a norma gramatical não é intrínseca à língua, portanto não é natural. A norma é ditada de fora para dentro visto que é o uso que se quer impor aos demais. Imposta ou não, a oralidade e a escrita são mesmo modalidades distintas da linguagem apesar de confundidas em certos momentos e interligadas em outros. O que alguns teóricos pensam sobre essas modalidades da linguagem?
Para o cientista da Linguagem Sylvain Auroux (1998, p.69), a existência da escrita transforma profundamente o estatuto da fala humana. Muitas coisas são ditas sem precisar da interferência da fala. O que está escrito é insensível ao silêncio. “A escrita que parece dever fixar a língua é precisamente o que a altera. Ela não só muda suas palavras e sim seu gênio. Ela substitui a expressão pela exatidão”(AUROUX, 1998, p.71). Ele prossegue com sua idéia ao dizer que a linguagem verbal escrita foi adquirida quando ocorreu a colocação em formas fixas. Somente a escrita impõe (qualquer que seja, aliás, o tipo de representação adotado) um recorte sistemático e tornado consciente de toda mensagem em unidades gráficas discretas.
A mensagem oral pode até portar marcas da relação (simbólica e social) entre o locutor e o interlocutor, mas o escrito é muito mais universalizante. Importante observar que as sociedades “grafematizadas” admitem mais facilmente as variações orais do que as variações escritas.
E quanto à memória? Quanto à memória, as sociedades orais são diferentes das sociedades escritas. Nas sociedades orais, a reconstituição das mensagens lingüísticas se dá de maneira menos eficiente. Auroux (1998, p.70) acredita que o escrito instaura-se com mais fidelidade à letra. A instituição literária, ao contrário, considera necessário que exista um texto estabelecido definitivamente.
A não existência de um locutor, ou seja, o não compartilhar de uma situação de referência, obriga a serem explicitados parâmetros da enunciação deixados implícitos no oral. No escrito, o leitor não pode interromper a mensagem e se instaurar como locutor apesar de ter todo o tempo de retornar sobre a mensagem, de interrompê-la ou modificar-lhe a recepção, conseguindo assim, perceber melhor sua estratégia, as articulações e as fraquezas. Essa possibilidade na escrita, segundo Auroux (1998, p.71), é pouco possível com o interlocutor ante o oral.
O oral, apesar de lançar mão de todo o leque de possibilidades não verbais, para ser melhor compreendido, deve ser frequentemente redundante enquanto o escrito permite uma maior densidade da informação. A própria recepção da mensagem é diferente a cada momento de sua emissão. Auroux (1998, p.73) menciona que a grafematização está em crescimento constante. A invenção da escrita consistiu em integrar a linguagem humana ao universo dos signos gráficos. Chega a dizer que no desenvolvimento intelectual da humanidade seu aparecimento é tão importante quanto o surgimento da linguagem articulada.
A linguagem é a forma propriamente humana da comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política e do pensamento. Essa linguagem se concretiza por inúmeros meios que são aprimorados e reinventados a todo o momento. Apesar da grande invasão das imagens no mundo da comunicação, dos símbolos e ícones, o ser humano faz parte da civilização da escrita. Percorre todos os caminhos da linguagem, faz uso daqueles mais adequados, absorve suas experiências e as aplica na língua escrita. Como diz Cotrim (1999 p. 21) “No homem ocorre a síntese que integra características hereditárias e adquiridas, aspectos individuais e sociais, elementos do estado de natureza e de cultura. Por isso o homem é um ser contraditório, ambíguo, instável e dinâmico. Um produto da natureza e da cultura e ao mesmo tempo um transformador da natureza e um produtor cultural. Criatura e criador do mundo em que vive”.

ADOLESCÊNCIA E COMUNICAÇÃO (AS MARCAS DA ORALIDADE NA FORMA DA ESCREVER)


Nesse capitulo, será mostrado o quanto a oralidade ou a fala está presente na forma escrita. O público, objeto desse estudo, é o jovem ou adolescente. Essa parte do trabalho visa também a identificar o quanto o fenômeno adolescência, com suas características, está presente na forma de se escrever do grupo em questão.
Sabe-se que a Escola toma como padrão para o ensino do português, a Gramática Normativa. A estudiosa da língua, Silva (RILP- Revista Internacional de Língua Portuguesa - nº. 12. 1994) expôs que a Gramática Normativa continua distante de refletir o padrão nacional falado (apesar de ter se deslusitanizado no século XX) o que vem mantendo a situação de muita divergência com o padrão escrito (Ex: colocação pronominal e regência verbal).
Para Silva (1994, p.76), os professores, antes de ensinar a língua oficial do país aos falantes nativos, deveriam se fundamentar na informação precisa de o que os falantes não sabem e o que eles sabem a fim de que lhe seja ensinado aquilo que não saibam. Em nenhum momento se está indo contra o ensino da gramática, pelo contrário, o segredo está em como simplificar esse ensino direcionando para uma coisa mais objetiva. “Quando a Escola corrige o dialeto do aluno, ela acaba modificando seu vernáculo, impingindo-lhe um padrão estranho ao falar, negando, dessa forma, o que ele já sabe falar.” Essa autora (SILVA, 1994, P.76) manifesta sua preocupação com o ensino ao dizer que as escolas deveriam priorizar a aquisição de novas estruturas morfossintáticas (desde a ampliação do vocabulário até a percepção e a produção de estilos) o que facilitaria a comunicação progressiva do indivíduo com outros grupos sociolingüísticos por meio da oralidade e da escrita. Essa dificuldade quanto à maneira de se introduzir os jovens no mundo lingüístico dito “padrão” gera muitas dúvidas e muitos questionamentos o que é facilmente verificado nas turmas de 5ª a 8ª série do ensino fundamental. Para Silva (1994, p.78), a melhor atitude seria munir o professor de uma gramática que descrevesse os usos orais e escritos dos brasileiros cultos acompanhados dos traços variáveis dos dialetos sociais e geográficos, mas significativos no povo brasileiro.
A língua não pode ser formatada de maneira “quadradinha” visto que é falada pelo povo. Como explica TERRA (1997, p. 38-40), a norma e o fato social andam juntos. A norma objetiva regulamentar o fato social o que não acontece tão facilmente, pois, os fatos sociais mudam o tempo todo e a norma, por não mudar com a mesma freqüência, acaba não espelhando, fidedignamente, as mudanças. Acompanhando os fatos sociais estão os jovens, que com toda a sua irreverência e sensibilidade, burlam as regras semânticas e sintáticas para adotarem uma atitude livre frente ao pensar, falar e escrever. TERRA (1997- p. 38) revela que nas escolas só se cumpre a norma gramatical quando o aluno se vê em perigo de “perder nota”.
É patente que a fala é a realização concreta da língua por isso sua evolução obedece, sempre, à evolução da sociedade que a criou. Como se dá essa evolução? Essa evolução ocorre por meio dos empréstimos e transferências[1]. Pode ser dito que os jovens costumam expressar sua revolução íntima por meio de seus escritos (poesias, diários, cartas, bilhetes, etc.). Esse material escrito é rico em empréstimos e transferências. As gírias, as palavras de baixo calão, as abreviações, as mensagens cifradas, os símbolos são o reflexo dos adolescentes.
Como os jovens formam o objeto de estudo desse capítulo, adequado se faz o entendimento a respeito deles. Observar apenas sua linguagem seria pecar em informações uma vez que a linguagem é apenas um prisma de sua complexidade. Para que se tenha um maior conhecimento sobre sua linguagem é importante conhecer mais sobre o universo adolescente. O que é adolescência? OSÓRIO (1989, p.10) explica que é uma etapa evolutiva do ser humano que culmina o processo maturativo biopsicossocial[2] do indivíduo. LEVINSKY (1998, p. 21-33) complementa afirmando que a adolescência é um processo vivido na cultura ocidental que surgiu com a industrialização e o desenvolvimento da burguesia.
É comum ouvir relatos de famílias que dizem que seus filhos adolescentes são muito agressivos e desrespeitosos. Por que isso? LEVINSKY (1998, p. 23) anuncia que a agressividade humana influencia e é influenciada pela cultura vigente em um processo dinâmico e constante.

Na tentativa de explicar ou de acalmar os pais que vivenciam dificuldades com seus filhos, alguns entendidos dizem que a rebeldia e a agressividade são frutos da puberdade, dos “hormônios em ebulição” [3]. Sem o intuito de discordar dessa idéia, mas antes acrescentar, não se pode esquecer que puberdade e adolescência são diferentes. OSÓRIO (1998, p. 10-11) informa que a puberdade é universal (inicia, em condições normais, quase ao mesmo tempo em todos os povos e latitudes) enquanto a adolescência, apesar de seu caráter universal também é regida por características diretamente relacionadas ao ambiente social e cultural do indivíduo. Para Freud[4] (apud LEVINSKY, 1998, p.21-23) a puberdade é um processo advindo das mudanças biológicas e a adolescência de processo de mudança psicosocial. Esse período de transição situado entre a infância e a fase adulta varia de cultura para cultura. Na cultura contemporânea ocidental, os pré-requisitos para a entrada na vida adulta são muito complexos. Não basta somente ter maturidade sexual (como em algumas sociedades primitivas). LEVINSKY (1998, p.25) afirma que o jovem precisa duelar com aspectos sociais, econômicos, religiosos, econômicos, profissionais além dos afetivos. Esse duelo acaba por tornar essa fase (inquieta e questionadora) mais duradoura para o tormento dos pais e dos próprios jovens. Na sociedade brasileira não há um rito de passagem (como entre os judeus, algumas tribos indígenas e africanas) o que torna a aquisição da condição adulta muito confusa e até desorganizada. “É necessário galgar várias etapas, em diferentes setores da vida psicológica, social, comunitária, econômica, profissional, legal, religiosa, moral e outros para poder atingir ou conquistar o status adulto”. (LEVINSKY, 1998, p.26-30).
É ainda em LEVINSKY (1998, p. 25-28) que se encontra a afirmação de que o processo adolescente além de variar de cultura para cultura, também varia dentro de uma mesma sociedade. Os jovens, dos centros urbanos, pertencentes à classe média, mostram-se mais instáveis, inseguros, rebeldes, com grandes oscilações de comportamento e de humor. Alguns pais questionam-se intimamente: “isso não tem fim?”, “Quanto tempo vai durar?” Informação importante nos presta, quanto a isso, a obra “Adolescente hoje” (OSÓRIO, 1998), ao revelar que a puberdade finaliza-se com o completo amadurecimento gonadal, cerca dos 18 anos. O fim da adolescência se dá em torno dos 25 anos[5] e obedece aos quesitos sociais e econômicos.
Sem perder de vista a idéia contida no título deste capítulo, os adolescentes são um mundo muito rico para ser observado. Nesse mundo jovem podem ser percebidas muitas questões interessantes que darão ao observador uma noção sempre atual da realidade do momento. Dentre essas questões: a mudança de ideologia, de comportamento, a efervescência das mudanças sociais e culturais além de se obter uma noção do quanto a língua (a construção de uma linguagem própria ou ainda a desconstrução de uma linguagem padrão vigente) é usada pelos jovens como bandeira de seu estado íntimo, de sua identidade.
Observar a escrita dos jovens é ter certeza de que a Gramática Normativa está mesmo longe de compreender a oralidade e assim, com a intenção de criar sua individualidade, esses jovens, além de romperem com muitos padrões sociais e de hierarquia, também invadem a escrita, meio tão ortodoxo, enfeitando-a com inúmeros traços da oralidade, da conversação informal.
O que a psicologia diz a respeito da linguagem jovem? Osório esclarece que quando um a adolescente diz: ”não adianta falar com os velhos porque eles não me entendem”, deixa implícito “o processo de defasagem lingüística e semântica entre as gerações e que acompanha a quebra do processo comunicante entre elas” Osório (1998, p. 18). Em “Adolescente hoje” (OSÓRIO, 1998, p. 18), lê-se a explicação de que a quebra desse processo comunicante entre pais e filhos se fundamenta nas perdas sofridas (a perda da bissexualidade, da dependência infantil, da linguagem infantil para adquirir a comunicação ou linguagem adulta). Incomum não é ouvir que os jovens não têm identidade[6] própria por isso repetem tudo o que os outros colegas dizem e fazem. O que não é verdade. Osório (1998, p.19) diz que o adolescente tem uma identidade lingüística e semântica adequada à sua condição de adolescente. Um exemplo muito bom disso é a gíria. “A gíria é a representação verbal da identidade adolescente com todo o seu polimorfismo e transitoriedade característicos do processo puberal” (OSÓRIO, 1998, pp.19). Pode ser dito que a gíria é a expressão verbal do processo de diferenciação. O escritor comenta que é um modo de reconhecer-se e a seu “grupo de iguais”.[7] Nesse processo de reconhecimento o jovem costuma adicionar novas palavras ou expressões que surgem criando um microcosmo lingüístico tomando como modelo os símbolos verbais propostos pela linguagem adulta, alterando-os dentro de um novo esquema semântico.
Para que haja comunicação desse novo código é preciso haver receptores conhecedores dos signos que compõem esse código. Daí ser o grupo muito importante. Para Osório (1998, p. 20), o grupo de iguais é a caixa de ressonância do adolescente. Ele continua dizendo que como precisam cristalizar suas identidades adultas e afirmarem-se como indivíduos autônomos os adolescentes deixam de utilizar como modelos identificação os pais, professores e adultos em geral e passam a procurar os tais modelos em seu próprio grupo.
Ernani Terra (1997, p.38) corrobora a idéia de Osório quanto às gírias ao exprimir o fato de que cada grupo distinto tem sua própria gíria[8]. Ela é uma linguagem expressiva utilizada por grupos de falantes e possuem algumas finalidades. A gíria dos jovens, por exemplo, tem por finalidade mostrar-se diferente dos demais grupos. Em “Linguagem, língua e fala” (TERRA, 1997, p.66) há a informação de que a gíria, por ser uma variante da língua, sofre evolução o que explica o surgimento de novas gírias e o desaparecimento de outras. É complicado dizer que os jovens falam errado visto que existem vários níveis da fala.[9] Ao invés de dizer “certo” ou “errado”, dever-se-ia dizer: linguagem adequada e inadequada. O discurso informal faz uso de um “certo” grupo de signos enquanto o formal faz uso de outro. Na linguagem jovem, há desvios sim, mas intencionais, pois o faz com a finalidade de reforçar a sua mensagem. É o que veremos nas análises das produções escritas abaixo.

Nas produções escritas, normalmente a língua tende a ser mais cuidada, mais elaborada por isso mesmo acaba ficando cada vez mais restrita ao necessariamente formal. Os jovens trazem a informalidade da conversação para a escrita. Comunicam-se, eficazmente, por meio das interjeições, dos parágrafos entrecortados, dos desenhos, etc..
Existem diferenças significativas entre a língua escrita e a língua falada em todos os níveis da estrutura lingüística. Existem as diferenças tanto na sintaxe quanto na morfologia flexional. “Aquele menino que eu vi ele ontem está hospedado com sua prima” é uma construção jamais aceita pela escrita formal, em contra partida, o futuro mais-que-perfeito não existe mais na língua falada assim como o futuro do indicativo está caminhando para o mesmo final (falarei/ vou falar). Os verbos rebuscados que não fazem mais parte do vocabulário oral passaram a deixar de existir também nos diálogos escritos informais. Os verbos que parecem estar assumindo uma tendência do inglês (um verbo pode ser usado para várias situações diferentes) andam invadindo a escrita jovem.
Uma outra característica da oralidade que foi incorporada à escrita são os processos de formação. A linguagem formal, por exemplo, é objetiva (expulsa a expressão direta da emotividade). Esse traço, a expressão de atitudes emocionais são recursos da linguagem coloquial (ex: adjetivos diminutivos, aumentativos, adjetivos pejorativos). E o que ocorre é a transposição desses traços emocionais para o texto escrito.
A língua jovem é outra. Sabe-se que na língua escrita já são aceitas algumas mudanças como os neologismos, mas, na linguagem adolescente, esses neologismos se modificam. As abreviações, traços escrito, adquiriram novas dimensões. Os jovens as usam como maneira de códigos. Tudo pode ser abreviado e o motivo disso é a crescente necessidade de rapidez ao escrever e rapidez ao interpretar (receptor). Para eles escrever todas as palavras completas é sinônimo de prolixidade, ou seja, perda de tempo ou em outras palavras está “out”.
Ocorrem em textos escritos alguns tipos de neologismos fonológicos. Alves (2002, p.11) cita que existem a criação onomatopaica e os recursos fonológicos. A criação onomatopaica, muito usada em textos eruditos e poéticos, tem invadido a escrita informal assumindo uma roupagem nova, uma vez que representa sons e expressões que são utilizados na oralidade, como: riso, raiva, beijo. Os recursos fonológicos que aparecem com a troca de alguns fonemas. Essas trocas não alteram, quase sempre, o entendimento da palavra e recebe transformação ao nível do significante (tchurma (turma); xou (show)). Algumas das várias formas grafadas com “x” foram introduzidas pela apresentadora Xuxa.
Alem dos neologismos que existem na escrita e que são modificados pelos jovens há, também, algumas classes gramaticais que funcionam como marcadores da fala. Alguns desses marcadores, que são muitos usados pelos falantes nos momentos informais, andam sendo encontrados na forma escrita. Baseado nas informações retiradas de Castilho (1998, p.47), nos textos analisados foram encontrados: marcadores prosódicos (alongamentos, pausas, velocidade da fala), os marcadores não-lexicais e lexicais (advérbios de enunciação, verbos e adjetivos).
A seguir são analisadas produções escritas, elaboradas por jovens de 7ª série, pertencentes à classe média alta, que estudam no Colégio Santo Antônio que fica na SGAS 911[10]. Seus nomes completos serão preservados, mantendo sua privacidade, ficando somente seus escritos e seus primeiros nomes. Renata (14anos), Jéssica (14 anos), Eduardo ou Dudu (15 anos) e Silvana (s.id. residente em Portugal)[11].
Foram selecionados textos de pelo menos três jovens que estudam na mesma sala e se intercomunicam com freqüência e uma carta de uma colega de grupo que se mudou para Portugal e continua se comunicando com uma delas por carta. Todos eles guardam todos os bilhetes e correspondências que recebem. A exceção de uma correspondência, esses escritos são produzidos muitas vezes dentro de sala, durante as aulas regulares tanto que quase todos são escritos em papel pautado (de caderno).
Uma curiosidade do grupo é que eles atribuem aos outros integrantes do “clã” e professores uma denominação muito peculiar. (mãe, pai, tio, sobrinho, irmão, etc)[12]. Em cada título que atribuem, junta-se a carga emocional advinda de seu relacionamento. Na produção escrita nº. 12, existe o Jeh, minha subrinha.
Em quase todas as produções escritas em questão não há o uso de pontos e vírgulas. Os sinais são reticências, pontos de exclamação, interrogação, desenhos e onomatopéias os quais são parte importante da mensagem visto que possui toda a carga emocional muito utilizada na oralidade e que os jovens conseguiram transcrever aqui. Uma outra característica interessante desses textos é a quase inexistiria de acentos. Os agudos, na maioria dos casos são substituídos pelo “h” Jeh, tah, eh, neh, soh, lah, ateh(1), moh(7)) [13]; o mesmo ocorre com o acento circunflexo, muitos também deixaram de ser acentuados. As sílabas que receberiam esse acento, apesar de não estarem grafados não deixam de ser entendidos no contexto. Percebe-se que os parágrafos não seguem a estrutura formal das redações, porém cada parágrafo contém uma idéia central. São parágrafos simples, mas carregada de mensagem perfeitamente compreendida pelo outro colega. Apesar de estarem em papel pautado, o texto não obedece as linhas mostrando o caráter livre do adolescente, ou seja, eles acabam como o escrito no meio da página, saltam muitas linhas para começarem a escrever o outro parágrafo e assim por diante. As palavras consideradas de baixo calão pela educação formal estão presentes em quase todos os textos como: fudida, kra, kct, kramba [14]. As gírias também estão muito presentes nos textos como: zoando, zoa, puts (3), mauz (6), vaza (5); véi, d boa (4), d zoa, di kra, marquei geral, pouxa[15]. As onomatopéias assumem a dianteira como exemplo: snif snif, buááááá (4), Ahhh, ehhhh(6). Estrangeirismos como: big, friend, best friend e 4ever (forever). O uso do X assume varias nuances. Como maneira de expressar carinho, ao imitar uma criança que não sabe falar e por isso é bonitinho têm-se: xabe, axima, xei, axim, xabia, xau, primuxos; miguxona, vx[16]. O X também é usado como marca da variação lingüística do RJ em tais casos: maix, ixqueci, ixcrevu, dixcubriu, ixcola(4) [17] . Como também marcas da fala do mineiro como: a nem, baum naum, naum [18]. Também há as ditongações como: faiz, tow(4,6), beim(2, 6,), teim(4), pouxa(1) [19]. Há também a supressão de vogal como em dexu, miga. Uma outra característica é que as palavras terminadas em “ão” são alteradas para “aum” como: noçaum, naum, intaum, baum(6); mtaum, bjaum(5) [20].
As abreviações (neologismos) estão por toda parte. O “você” está representado de várias formas (c, vc, vx (4)), além dessas abreviações conhecidas e já incorporadas existem aquelas inovadas como: fik, mt, ms, cmg, kra, geo, (4); pq, flo, pra, mo, pt, ñ, math, dps (3); flei, cine, tbm, oq, fkar, pd, td (1); kbça, nda, bjoks, dond (7), tva, fikria, musik, dexo (8) [21].
Uma outra coisa interessante de observar é que esses jovens substituem a letra pela representação fonética como, por exemplo: Quantu, voutandu, tantu, genti (1); aki, ki, isoladu, zuandu, sériu, keru, kair, im, cum, u, vuando (4); tenhu, comu, pirralhu, fiko, mi, sacu, duranti, kiria (6); intaum, deformadu (4); funcionandu, captandu, lixu (7); dançamu, abraçadu, fikaria, ispero (8) [22].




Podem ser citadas como atitudes emocionais expressões como: miguxona, Renatinha (5); pequetita, migua, primuxo. Podem ser citados como marcadores da fala: beim, ou, tipo (2), nossa, putz, uhel, (3); ow, kct (cacete), eh, neh, (4); kra (cara), xabe (sabe) (9); Olááá, ah, nosssa, ahhh, d boa, kramba (4).
Por meio das observações feitas, percebe-se que a juventude está transportando, da linguagem informal, traços marcantes para a sua escrita. Isso não significa que eles não estão aprendendo nada e nem que seus pais estão jogando dinheiro na lata do lixo pelo contrário, essa linguagem faz parte da identidade adolescente, não significa retrocesso e sim um momento rico em criatividade e desprendimento que cessa tão logo adentra o status adulto (salvo exceções– patologia). Como dito anteriormente, eles fazem uso dos desvios da linguagem propositalmente, seja para romper com velhos padrões, seja para se auto-afirmarem como indivíduos ou para selecionarem quem querem que os entendam. O fato é que a adolescência o resultado das teorias lingüísticas que pregam que os professores não devem tratar os alunos como um vaso vazio onde eles depositarão o conteúdo formal e desrespeitando, assim, todo o seu letramento informal. Por meio de sua escrita e das comparações das correspondências fica claro que eles fazem uso tanto de seu letramento informal como do seu letramento formal. Eles sabem aplicar com muita competência (De acordo com a aprendizagem do conteúdo programático[23] referente à série cursada) a norma padrão no momento em que julgam necessário.

Nas produções escritas de nº. 10 e 11, fica patente a sua adequação. A produção escrita número 11 foi redigida por uma colega da Jéssica residente em Portugal. Pelo fato de estar distante do Brasil e consequentemente de seu grupo, além de está fazendo uso de uma correspondência formal, ela escreve totalmente diferente da colega. A sua carta obedece a uma regra. Os sinais de pontuação voltam a ser usados em seus devidos lugares, não há abreviações, as letras maiúsculas são utilizadas, quase não há traço de emoção. A outra produção escrita, número 10, é um bilhete escrito por Eduardo (Dudu) e dado à sua professora de português. Ele chega a ser rebuscado na escolha das palavras. Comporta-se de maneira formal, lança mão da objetividade própria da escrita, da concisão da mensagem. É muito fácil observar a diferença dessa escrita em relação à produção escrita de número 7 e 8 do mesmo autor.
Apesar das controversas, o jovem adolescente está plenamente inserido no segmento da sociedade que compete a ele. Por meio dele se consegue observar que os jovens são mais que “aborrescentes” são uma célula viva em mutação promovendo mudanças e reflexões.

[1] Empréstimos são a incorporação na forma original ou aportuguesada de palavras provenientes de outros idiomas. (futebol – football, game, set, Chat, etc.). Transferências são a utilização de expressões já existentes e com um determinado significado em um outro momento cultural e ás vezes com sentido diferente (mina, cara, guria...). (Ernani Terra – 1997)

[2] “Conjunto das características biológicas, psicológicas, sociais e culturais que confere a unidade ao fenômeno adolescência”. (Luiz Carlos Osório – 1989)
[3] “hormônios em ebulição” processo biológico normal na puberdade que a secretação de hormônios que começam a atuar de maneira mais intensa sobre o organismo.
[4] Pensamento contido em: “O mal-estar na cultura” (1930) e “Totem e Tabu” (1912-3).
[5] “No final desse período, o indivíduo teria, estabelecido sua identidade sexual e relações afetivas estáveis; teria capacidade de assumir compromissos profissionais conseguindo manter-se; teria adqirido sistema de valores pessoais (“moral própria”); conseguiria estabelecer relação de reciprocidade com a geração precedente (sobretudo os pais)”. (OSÓRIO, 1998)
[6] “Não se pode dizer simplesmente que o adolescente busca ter uma identidade. Ele tem uma identidade a do adolescente que é justamente a que lhe permite seguir o curso de seu desenvolvimento” (Knobel (SR) citado por Osório, 1998).
[7] Luiz Carlos Osório. “Adolescente hoje”. 1998.
[8] Gíria dos malandros, a dos jovens, a dos surfistas, a do futebol, etc.
[9] A gramática considera “erro” o desvio da Norma quando se dá por ignorância, por não conhece-la”. (Ernani Terra. 1997. pp.).
[10] A análise foi realizada por Valéria de Carvalho Moutinho baseada em teorias escritas por: CASTILHO, (1998); CHALHUB (2003); ALVES (2003).
[11] As produções escritas foram cedidas pelos próprios jovens já citados e entregues no dia 9 de novembro de 2004 pela professora Valquíria Aires Gomes (Literatura Infanto-juvenil – UniCEUB) e que também ministra no Colégio Santo Antônio a disciplina de Língua Portuguesa.

[12] Informação prestada pela professora Valquíria Aires Gomes.
[13] Jé, ta, é, né, só, lá, até, mó.
[14] fudida, caralho, cacete, caramba.
[15] Divertindo-me, rindo de mim, o que é isso. Muito triste, ir embora, amigo, é verdade, sem brincadeira, impressionado, vacilei poxa!
[16] Sabe, acima, sei, assim, sabia, tchau (ex. 9); primos fofos (ex. 1); amigona (ex. 2), você (ex.4).
[17] Mas, esqueci, escreveu, descobriu escola (ex.4).
[18] Não me diga!, bom né?, não (ex.)
[19] Faz, tô (redução de estou) (ex.4,6), bem (2,6), tem (4), poxa (1).
[20] Noção, não, bom (ex.6), muitão(intensidade), beijão (ex.5).
[21] Fico, muito, mas, comigo, cara, geografia, porque, falou, para,muitão, puto, não, matemática, depois, falei, cinema, também, o que, ficar, pode, tudo e todo, cabeça, nada, beijocas, de onde, tava, ficaria, musica, deixa eu...
[22] Quando, voltando, tanto, gente, aqui, que, isolado, zoando, sério, quero, cair, em, com, o, voando, tenho, como, pirralho, fico, me, saco, durante, queria, então, deformado, funcionando, captando, lixo, dançamos, abraçando, ficaria, esperando.
[23] Conteúdo Programático de 7ª série de Ensino Médio: Análise morfossintática, fonética e fonologia, Regência e Concordância verbal, Período Composto por Subordinação e Crase.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Logos é uma síntese de três palavras ou idéias: fala/palavra, pensamento/idéia e realidade/ser. Logos é o discurso e pensamento é realidade. Do logos desenvolve-se a linguagem como poder racional e as palavras como conceitos referidos ao pensamento, à razão e à verdade”. (CHAUÍ, 1995, p. 139)
Terra (1997, p. 12,13) nos ensina que a linguagem é todo sistema de sinais convencionais que permite ao homem realizar atos da comunicação. A linguagem pode ser verbal (cujos sinais para os atos da comunicação são as palavras) e não verbal (cujos sinais para os atos da comunicação são outros diferentes das palavras). A língua é a linguagem humana que utiliza palavras que obedecem a um conjunto de regras para a combinação destes e se concretiza por meio da fala que é um ato individual de vontade e inteligência. A língua verbal possui duas modalidades distintas entre si que são: escrita e fala. Lyons (1981, p.12) menciona que há diferenças funcionais e estruturais entre a língua oral e a escrita e que essas diferenças variam de língua para língua devido às situações históricas e culturais.
A língua escrita funciona de acordo com um código de regras que se encontram na Gramática Normativa. Terra (1997, p.38) discorre sobre o fato de que a gramática estabelece um determinado uso, denominado padrão ou culto. Auroux (1992, p.35,36) afirma que nos treze séculos de história, desenrolou-se o processo de gramatização massiva. Ele (AUROUX, 1992, p. 35) informa que depois do advento da escrita, a gramatização constitui a segunda revolução técnico-lingüística que trouxe diversas conseqüências práticas para as sociedades humanas. Segundo Auroux (1992, p.36), o interesse prático da gramática se estende desde a filologia até o domínio das línguas maternas e se torna, ao mesmo tempo, uma técnica pedagógica de aprendizado das línguas e um meio de descreve-las. Para Terra (1997, p.38), a gramática não é natural e apresenta características semelhantes aos códigos de natureza ética ou moral (impõe o que deve ou não deve ser feito) visto que tem caráter imperativo. Cagliari (1989, p. 80) comenta que a convencionalidade da linguagem rege as relações entre signos lingüísticos e mundo ao mesmo tempo que se prende a valores sociais, econômicos, ideológicos, políticos, religiosos.
Com o surgimento da escrita, tudo pode ser registrado adquirindo uma relativa perenidade. Por meio da escrita, as ciências humanas e exatas puderam ser sistematizadas propiciando uma maior credibilidade e respeito. Lyons (1981, p.10) afirma que pelo fato de os textos escritos terem sido utilizados para fins tão importantes ao longo da história (ou pelo menos até o surgimento dos métodos modernos de gravação de som), a língua escrita adquiriu mais prestígio e formalidade em muitas culturas.
Com a lingüística, os estudiosos passaram a perceber que a e língua não é só a que ensina a gramática. A realidade brasileira é outra uma vez que o coloquial anda lado a lado com a língua normativa. Dizer que a língua é uma só é cometer um grave equívoco visto que há um abismo grande entre a oralidade e a escrita. Não se fala como se escreve e Isso se dá pelo fato de que a escrita regida pela gramática é pouco flexível, não respeita as diversidades lingüísticas enquanto a língua oral é totalmente flexível e mutável. Segundo Cagliari (1989, p.81), as línguas se transformam a todo momento e ao longo do tempo. Quando se transformam, as línguas não se degeneram, elas adquirem novas perspectivas da sociedade que também se modifica.
“O acervo lexical das línguas vivas se renova. Enquanto algumas palavras tornam-se arcaicas, muitas unidades lexicais são criadas pelos falantes de uma comunidade lingüística“. (ALVES, 2002,p.5). Toda essa flexibilidade da língua oral é facilmente percebida no século XXI, com a era dos computadores. Por meio dos computadores as informações são emitidas e recebidas com muito mais velocidade. “Um indivíduo será totalmente alfabetizado pela informática, contando com um código semiótico”(OSORIO, 1989, p. 65). Essa velocidade associado ao código é o que se percebe facilmente na linguagem eletrônica dos jovens. Osório (1989, p.64,65) menciona que a linguagem dos computadores se transformou na língua materna e universal dos adolescentes. Hoje, a linguagem codificada, recheada de representações da oralidade e que antes era usada apenas na internet, invadiu outros meios de comunicação. As produções escritas convencionais possuidoras de um modelo pré estabelecido como: cartas, bilhetes, avisos foram renovados, pelas contribuições lingüísticas fornecidas pelos jovens, se transformando em correspondências totalmente informais ou conversas escritas. Como já percebia Lyons (1981, p.12) os sinais de pontuação, bem como o uso de itálicos e letras maiúsculas existem na escrita assim como a entonação na fala não podendo jamais os sinais escritos representar os sinais orais. Sem saber, os jovens se apropriaram da acertiva de Lyons, ao substituírem os sinais de pontuações convencionais por sinais de entonação e emoção próprios do coloquial.
O fato é que os jovens se expressam, na oralidade e na escrita informal, livremente, rompendo com paradigmas, padrões pré-existentes o que caracteriza a própria identidade adolescente. Toda palavra tem um significado, todo significado contém uma idéia e toda a expressão é promovida por uma emoção. E como diz Chauí (1995, p.147), a experiência da linguagem é algo fascinante. Emite-se e ouve-se sons, escreve-se e lê-se letras mas experimenta-se sentidos, significações, emoções, desejos, idéias.